Ttulo: Bandido Sedutor.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1989.
Ttulo Original: Stand and Deliver Your Heart.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
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Barbara Cartland
A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes 
de livros vendidos em todo o mundo

Bandido sedutor
Sequestrada por impiedosos bandidos, Vanda estava sendo mantida 
prisioneira nas runas de uma antiga capela. Pelo que ouvira falar a 
respeito da ganncia e crueldade do chefe do bando, temia que ele no se 
contentasse apenas com a soma exigida por seu resgate. Foi com horror, 
ento, que viu suas suspeitas confirmadas ao ser entregue a um homem que, 
incgnito por uma mscara, lhe ordenou: "Venha!  intil resistir, paguei 
um preo elevado por voc e, antes que a noite termine, vou torn-la 
minha".

Nova Cultural
Bandido sedutor
BARBARA CARTLAND
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Nova Cultural
Ttulo original: Stand and Deliver Your Heart
Copyrigth: (c) Barbara Cartland
Traduo: Vera Ldice Reys
Copyright para a lngua portuguesa: 1989
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 - 3? andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda
Impressa na Aries Grficas Parmetro Lida.

NOTA DA AUTORA
Foi no sculo XVIII que os salteadores, ou ladres de estrada, se 
tornaram uma grande ameaa, de tal modo que nenhum viajante estava seguro 
em qualquer caminho.
Mas as pessoas tambm os consideravam com certo romantismo. E, na 
verdade, poucos desses criminosos eram realmente capazes de matar e 
torturar suas vtimas.
Conforme conto neste romance, havia alguns que eram bem-nascidos, 
provenientes de famlias respeitadas e educados em colgios particulares.
William Parsons, por exemplo, era filho de um baro, fora educado em Eton 
e comissionado na Marinha real. Simon Clarke era ele prprio um baro que 
se tornou salteador de estrada.
Esses agiam de maneira melhor que Dick Turpin, o mais famoso dos ladres 
de estrada, que era bruto e inescrupuloso.
Alguns salteadores conseguiram escapar, mas a maioria deles foi enforcada 
em Tyburn que, at o fim do sculo XVIII, era onde esse espetculo 
brbaro e brutal ocorria.
Multides se aglomeravam para presenciar um enforcamento. Os nobres 
pagavam altas somas por assentos prximos do patbulo.
A plebe, que no podia se dar ao luxo de pagar, disputava ferozmente os 
melhores lugares. Assim, vrios espectadores acabavam com pernas e braos 
quebrados ou at
morriam esmagados.
Alm disso, uma espcie de feira com espetculos paralelos aos 
enforcamentos ocorria em Tyburn com vendedores ambulantes oferecendo 
mercadorias.
Em 1789 a forca foi removida de Tyburn para o ptio da Corte de Old 
Bailey. Porm o enforcamento continuou aberto ao pblico, e a situao em 
que ocorria no melhorou.

CAPTULO I
1817
Vanda atravessava o bosque refletindo que h muito no fazia um dia to 
lindo como aquele.
As primaveras estavam floridas, violetas desabrochavam  sombra das 
rvores. Uma profuso de pssaros enchia o ar com seus trinados.
Sempre gostara de cavalgar no grande parque que circundava a manso Wyn.
O sr. Rushman, o administrador da propriedade, durante a guerra lhe dera
permisso para passear  vontade por ali sempre que quisesse.
O velho conde de Wynstock, nessa poca, estava enfermo e preso ao leito,
e o filho dele lutava contra Napoleo.
- Ser bom ter algum jovem circulando por aqui dissera-lhe o 
administrador -, e no  preciso se fazer acompanhar por um cavalario.
Isso para Vanda era mais importante que qualquer outra coisa. Seu pai 
sempre insistira para que levasse um acompanhante quando sasse de casa 
para cavalgar. Eles moravam nas proximidades de Wyn Park, no fim da 
aldeia. Bastava apenas cruzar a estrada, sob as rvores, para se sentir, 
como ela prpria definia, livre, e um acompanhante tolheria boa parte 
dessa sensao de liberdade.
Vanda refletiu ento que seria muito frustrante se, agora que a guerra 
terminara, o conde voltasse e a impedisse
de usar a propriedade para seus passeios. No imaginava como ele iria se 
comportar quanto a isso. Ela mal se lembrava dele. E o jovem conde tomara 
posse do ttulo h trs anos por intermediao legal.
Soubera que se distinguira na Batalha de Waterloo e recebera condecorao 
por atos de bravura. Juntara-se, ento,  equipe do duque de Wellington 
servindo no Exrcito de Ocupao.
Agora os soldados haviam sido desmobilizados e centenas deles comeavam a 
voltar para a Inglaterra. Contudo, no haviam tido notcias do novo conde 
de Wynstock.
- Talvez ele resolva no voltar - Vanda pensou triste. Assim devaneando, 
encaminhou-se para o centro do bosque, onde sabia que ningum alm dela 
ia.
L, em meio s rvores, havia as runas de uma antiga capela, construda 
por um monge que se afastara do mundo civilizado para viver como ermito.
Era um homem muito religioso, quase um santo, e naquela regio corriam 
lendas sobre seu dom de curar animais.
As raposas que caam em armadilhas s escapavam da morte porque ele as
tocava. Crianas levavam-lhe gatos e cachorros doentes, pssaros com asas
quebradas. O monge fazia uma prece e, colocando a mo sobre os animais, 
curava-os.
A pequena capela, no entanto, desgastada pela ao do tempo e por falta 
de conservao, acabara destruda. Os aldees acreditavam que o fantasma
do monge assombrava o bosque e temiam ir at aquele lugar.
- Como  que a senhora pode ter medo de algum que foi um santo? - Vanda 
perguntou a uma mulher idosa, certa vez.
- Pode ser que seja santo, mas mesmo assim  horripilante
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a ideia de ver algum que j morreu!
Ningum da aldeia se atrevia a pr os ps no bosque do monge. Apenas 
alguns rapazes invadiam esporadicamente a propriedade para caar e
pescar, j que, com o conde ausente, havia abundncia de faises, pombos
e outros tipos de caa.
Para Vanda, entretanto, aquele bosque era quase mgico. Gostava de ficar 
ali sozinha, serr ningum para perturb-la, ouvindo o zumbido das 
abelihas e o farfalhar causado pelo vento passando por entre s folhas 
das rvores. Ela procurava fixar na mente esses sons harmoniosos para 
tentar mais tarde reproduzi-los ao piano.
A me de Vanda fora uma excelente pianista e isso a estimulava a seguir-
lhe os passos. Estava naquele momento pensando em compor uma melodia que
evocasse a primavera e buscava inspirao nas rvores floridas ao seu
redor.
Foi ento que, de repente, ouviu um som estridente que interrompeu seus 
devaneios e quebrou a harmonia do bosque.
O barulho se repetiu e ela refreou o cavalo.
O pai de Vanda possua animais de excelente qualidade. Seu favorito era o
que ela estava montando naquele momento, um garanho chamado Kingfisher.
O animal obedeceu imediatamente ao comando e parou.
Vanda percebeu que, bem no meio do bosque, onde nunca encontrara ningum 
antes, havia alguns homens.
O som que ouvira era de uma gargalhada debochada.
Prestando mais ateno, distinguiu vozes e pde perceber que no eram de 
pessoas da regio.
Os habitantes de Little Stock, como a aldeia era chamada, falavam com um 
sotaque lento, tpico de Wiltshire. Ela e o pai costumavam achar graa do 
modo de falar deles, embora gostassem.
Enfim, quenl quer que fossem as pessoas ali no bosque, estavam falando
com bastante aspereza. O sotaque era-lhe desconhecido e havia algo no
tom daquelas vozes que a desagradava. Na verdade dava-lhe medo.
Afinal, perguhtava-se ela, quem poderia estar fazendo tamanha algazarra
justamente na parte do bosque que as pessoas da regio consideravam
sagrada?
Deviam ser arruaceiros de outras aldeias, mas de qual delas?
E como se atreviam a invadir a propriedade particular do conde de 
Wynstojck? Aquelas eram perguntas para as quais seria arriscada tentar
obter respostas.
Novamente ouviu Uma gargalhada e em seguida vozes rudes.
No conseguia entender o que diziam, mas percebeu que eram trs ou mais 
homens falando.
Puxou a rdea de Bpngfisher fazendo-o dar meia-volta e retomou o caminho 
por onde viera, sentindo raiva dos desconhecidos que violavam a 
privacidade do bosque.
Ficou imaginando o que poderiam estar fazendo ali e de que achavam tanta 
graa.
- S espero que vo embora logo e no voltem mais
- disse baixinho.
De repente, ocorreu-lhe que eles poderiam danificar a propriedade do 
conde.
A manso Wyn era um magnfico exemplo do trabalho dos irmos Adam.
Tinha sido construda na metade do sculo passado no lugar de outra casa 
muito mais antiga.
Os condes de Wynstock datavam da poca de Henrique VIII.
Tornaram-se mais importantes com o passar dos sculos
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e cada um deles fizera melhoramentos na casa em que moravam.
Alm disso, haviam adquirido mais terras.
Vanda crescera  sombra da manso Wyn pela qual sentia uma profunda 
afeio.
Tambm gostara muito do velho conde, um homem distinto, que tinha quase a 
mesma idade de seu pai e de quem fora amigo.
O conde nunca estivera no Exrcito, mas gostava de ouvir as histrias do
pai de Vanda, general sir Alexander Charlton, que lhe contava sobre os
anos que passara na ndia com seu regimento.
Quando o conde morreu, Vanda percebeu que seu pai sentiu-se perdido sem o
amigo que lhe dera tanto apoio e o confortara por ocasio da morte de sua
me.
O general ficara muito abalado com a morte da esposa, mas ao menos tinha 
um amigo da mesma idade com quem podia conversar e preencher em parte a 
solido. com a morte dele, ficara apenas com a filha.
Vanda percebeu isso e procurava preencher o vazio na vida do pai, porm 
s o que podia fazer era limitar-se a escut-lo quando falava.
Felizmente o general estava agora escrevendo um livro de memrias que lhe 
tomava bastante tempo e o mantinha ocupado.
Vanda tinha certeza de que, depois de terminado, o livro seria de grande 
interesse para o pblico.
Na verdade fora difcil convencer o pai a escrever as histrias que ele 
contava to bem.
Sua me gostava muito de ouvi-las. Costumava dizer:
- Conte a Vanda como voc dominou aquele motim... Ou ento:
- Fale das belezas do Palcio do Maraj de Udaipur
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e daquele cor-de-rosa que voc gostava tanto em Jaipur!
Vanda adorava as histrias do pai.
O fato de ele ter resolvido escrever as memrias dera novo alento  vida 
dele, pois havia mais de um ano que comeara a sofrer de reumatismo nas 
pernas, o que o impossibilitava de cavalgar em companhia da filha como 
tanto gostava. Seria terrvel se no tivesse algo a que se dedicar.
Vanda saiu do bosque ponderando se devia ou no ir para casa contar ao 
pai sobre a invaso dos desconhecidos. Mas, ento, teve uma ideia melhor. 
Resolveu ir at a manso e avisar os caseiros para que ficassem de 
prontido.
Os desordeiros talvez quisessem criar confuso, quebrando vidraas ou as 
esttuas do jardim.
- vou prevenir os Taylor - disse para si mesma.
Dirigiu Kingfisher a galope pelo parque, passando sob os velhos 
carvalhos, atravessando a ponte sobre o lago at chegar  estrebaria.
Estava to acostumada a fazer aquele trajeto que era quase como se 
chegasse em casa.
Quando entrou no ptio, o chefe dos cavalarios, que a conhecia desde 
criana, foi ao seu encontro sorrindo:
- Boa tarde, srta. Vanda,  uma alegria para os olhos v-la.
- Obrigada. Espero que esteja melhor e que o corte em sua mo tenha 
cicatrizado.
- Cicatrizou logo com o remdio que a senhorita recomendou passar.
Ele pegou Kingfisher pela rdea e conduziu-o para a cocheira.
Vanda percorreu a alameda ladeada de rododendros que conduzia  entrada 
da cozinha.
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Entrou sem bater como sempre fazia. Era um aposento amplo, com teto alto.
De uma viga larga pendiam presuntos defumados e um pequeno coelho da 
ltima caada.
Os caseiros estavam sentados  mesa tomando ch.
O sr. Taylor fez meno de se levantar assim que Vanda entrou, mas ela o 
deteve, dizendo:
- No se incomode, s vim para dar-lhes um aviso.
- Ento sente-se conosco, srta. Vanda - pediu a sra. Taylor, que era uma 
mulher corpulenta e de faces rosadas.
- Uma xcara de ch lhe far bem, tenho certeza.
- Sem dvida, aceito com prazer.
Embora no gostasse muito daquele ch preto e forte do Ceilo, Vanda 
sabia que seria indelicado recusar. Assim que o ch lhe foi servido, ela 
falou:
- Acabo de presenciar um fato muito estranho! Eu vinha cavalgando pelo 
Bosque do Monge e sabem o que descobri? L perto das runas da capela, 
onde ningum vai a no ser eu, havia alguns homens!
Fez uma pausa e, como os Taylor no lhe dissessem nada, prosseguiu:
- Eram desconhecidos e sem dvida no so de Wiltshire. No sei quantos 
havia, mas estavam rindo de uma maneira debochada e desagradvel.
Marido e mulher se entreolharam e Vanda percebeu que no estavam 
surpresos com a notcia.
- Ento eles estavam no Bosque do Monge? - disse o sr. Taylor, afinal, 
sem pressa. - E o que acha que estavam fazendo l? - acrescentou, olhando 
para a esposa.
Ela no respondeu e serviu-se de mais ch, embora sua xcara estivesse 
ainda quase cheia.
Vanda olhou de um para o outro, depois disse:
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- Algum j lhes falou desses homens?
- No, no - disse Ann Taylor, apressada. - No sabemos nada sobre eles.
Estava visivelmente nervosa e falava de um modo que no era o seu 
habitual.
Vanda virou-se para James Taylor com olhar interrogador.
- No sei nada que lhe possa dizer, srta. Vanda - ele disse afinal. - 
Eles no tm nada a ver conosco.
- Mas vocs sabem que eles existem! - insistiu Vanda. - Eles j estiveram 
aqui causando problemas?
A sra. Taylor largou o bule de ch e apoiou as mos na mesa.
- Oua meu conselho, srta. Vanda: v para casa e no comente com ningum
o que ouviu. No h nada que se possa fazer e ns no queremos problemas.
- Problemas? - perguntou espantada. - Mas de que est falando? E de que 
modo isso pode afet-los?
Ann olhou desolada para o marido.
- Somos sozinhos aqui, srta. Vanda - ele disse -, a no ser pelos 
cocheiros, que no so de grande ajuda. Good  um velho, e Nat e Ben s 
tm tamanho em cima dos cavalos!
Apesar da preocupao, Vanda teve vontade de rir com a descrio dos dois 
cocheiros mais jovens, que de fato pareciam jqueis.
Entretanto, no podia deixar de se perguntar o que estaria acontecendo 
por ali e por que os Taylor estavam fazendo tanto mistrio. O pior  que 
ningum mais poderia esclarec-la.
O administrador, o sr. Rushman, tinha mais de setenta anos e j no 
cavalgava mais, s se locomovia de cabriole. No estava muito bem de 
sade e durante o inverno a bronquite
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o atacava.
Vanda puxou a cadeira para mais perto da mesa onde apoiou os cotovelos e
encostou o queixo nas mos cruzadas:
- Agora quero que me contem o que est preocupando vocs. Sabem que eu os 
ajudarei se puder e saberei guardar segredo se quiserem!
O sr. Taylor olhou para a esposa. Ann deu um profundo suspiro que sacudiu 
seu corpo gordo.
- Ns vamos lhe contar - ela disse, afinal. -  que... eu tenho muito 
medo de falar deles.
- Deles quem? - perguntou Vanda. O sr. Taylor pigarreou.
-  isso mesmo, srta. Vanda. Ns estamos aqui, como sabe, para cuidar da 
casa enquanto o conde no est.
- E ningum faz isso melhor do que vocs - Vanda elogiou com sinceridade.
Realmente, contando com a ajuda de trs faxineiras da aldeia, a casa 
estava to bem cuidada quanto na poca em que o velho conde era vivo.
S que no havia lacaios no hall nem mordomo supervisionando-os. Tambm 
no havia chefe de cozinha.
Quando o conde morreu, o sr. Rushman contratou os Taylor como caseiros, 
que desde o incio se mostraram eficientes.
Vanda sempre os ouvia dizer o quanto gostavam do trabalho que faziam, por 
isso no podia entender agora o que havia acontecido para deix-los com 
tanto medo e relutantes em falar.
- Vamos, no tenha receio de falar - ela disse.
- Eles apareceram aqui h umas duas semanas - comeou o caseiro.
- Eles? - admirou-se Vanda. - Quem so eles?
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-  isso que ns no sabemos. S sei que so alguns homens.
Vanda tambm deduzira isso pelas vozes e risadas que ouvira, mas esperou 
calada que ele prosseguisse:
- Eles pediram gua, depois disseram que se minha mulher e eu ficssemos 
de boca fechada e esquecssemos o que tnhamos visto nada nos 
aconteceria.
- Disseram isso? E vocs, o que responderam?
- Esse no  o tipo de gente que ouve resposta.
- Da, o que aconteceu?
- No conte, no diga nada - pediu Ann Taylor, com gestos nervosos.
-  melhor eu saber de toda a verdade - retrucou Vanda. - Assim, se 
acontecer alguma coisa, eu poderei ajudar vocs.
- No vai acontecer nada, nada! - falou a sra. Taylor. - Eles prometeram 
isso se ns ficarmos de boca fechada.
- Mas para mim no faz mal contar, eu sei guardar segredo - insistiu 
Vanda. - S no gosto de ver vocs preocupados desse jeito!
- A preocupao no d para ser evitada - disse o sr. Taylor. - Mas no 
h nada que possamos fazer.
- Onde  que esto esses homens? - Vanda perguntou. Fez-se um silncio 
prolongado, depois, quase num sussurro, o caseiro falou:
- Esto na ala oeste, srta. Vanda.
A ala oeste estava fechada h muito tempo, desde bem antes da morte do 
conde.
Ele achava que a casa era grande demais e os aposentos desta ala nunca 
eram usados nem tinham algum valor histrico.
Era na ala leste que ficavam a Galeria de Retratos, o Salo 
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de Bailes e havia alguns dormitrios no pavimento superior.
Vanda horrorizou-se ante a ideia de bandidos e desordeiros estarem 
ocupando a manso Wyn que tanto amava.
Achou bastante estranho que os caseiros no tivessem procurado pelo sr. 
Rushman para que ele expulsasse os invasores, contudo sabia que seria 
indelicado comentar isso criticando a atitude deles. Portanto disse 
apenas:
- Imagino que se tenham assustado com as ameaas deles,  natural. Mas, 
ento, eles no pretendem ficar aqui por muito tempo?
- Isso  o que no sabemos - retrucou a sra. Taylor.
- Ficamos aqui no nosso canto e fingimos que eles no existem.
- Mas eles esto invadindo a propriedade... - Vanda disse, num tom 
calmo.
- Sabemos disso, mas eles so perigosos, senhorita, e ns j ouvimos
muitas histrias de coisas que aconteceram, e que podem vir a acontecer
aqui - explicou o caseiro.
- Que tipo de coisas? - Vanda perguntou. Novamente ele baixou o tom de
voz, falando num sussurro, quase que s com o movimento dos lbios:
- Assassinatos.
- No posso acreditar! - Vanda exclamou - E, se esses homens so 
assassinos, como podemos permitir que fiquem na manso ou at mesmo na 
aldeia?
James Taylor olhou por sobre o ombro como que temendo que algum pudesse 
ouvi-lo.
- No fale to alto, srta. Vanda - pediu. - Se algo lhe acontecesse 
jamais nos perdoaramos.
-  verdade - concordou a sra. Taylor. - No comente nada sobre isso, 
srta. Vanda. Quem sabe eles vo embora logo.
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- E se no forem? - Vanda perguntou. Os caseiros se entreolharam e ela 
percebeu o quanto estavam assustados.
Ficou procurando o que dizer para confort-los, ao mesmo tempo que 
tentava descobrir quem poderia expulsar os invasores.
Um bando de desordeiros que invadiu uma casa vazia protegida apenas por 
um casal j idoso.
Sabia, entretanto, que tal atitude era de se esperar aps uma guerra.
Muitos homens que haviam arriscado suas vidas para defender a ptria 
tinham sido afastados sem receber penso.
Mesmo os que tinham sido feridos ou ficado aleijados no receberam 
nenhuma indenizao.
Seu pai fora informado do que estava acontecendo nas reas costeiras.
Marinheiros desligados da Marinha perambulavam pelas aldeias em busca de 
comida e pedindo dinheiro para os humildes habitantes.
- No posso culp-los por isso - dissera sir Alexander, com amargura. - 
Afinal eles nos deram a vitria na guerra e, agora que h paz, ningum se 
preocupa com eles.
- Mas o governo deveria fazer alguma coisa - protestara Vanda com 
veemncia.
- Deveria - retrucou o pai -, mas duvido que o faa. Continuaram a 
conversa, comentando como os homens
que haviam lutado, ao voltarem, encontravam seus empregos ocupados pelos 
que haviam ficado.
- Muitos no voltaram.
com o fim da guerra, no havia mais a procura desesperada de alimentos 
que existira nos ltimos quinze anos. Os fazendeiros j no conseguiam 
vender suas safras.
Alm disso, vrios aristocratas proprietrios de terras
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sofreram consequncias financeiras desastrosas com a guerra, por
isso j no podiam ter tantos serviais como antes.
Muitas casas precisavam de consertos e reformas, mas os proprietrios no 
tinham recursos para faz-los.
Era difcil para os ingleses encontrar compradores para as mercadorias 
excedentes.
"Deve haver algum que possa fazer esses homens se portarem bem", Vanda 
pensou.
Porm sabia que na aldeia havia poucos homens capazes de enfrent-los.
Acabou decidindo que precisava discutir o assunto com o pai.
Ele saberia dizer se havia soldados pelas redondezas. Caso as coisas 
piorassem, poderiam chamar alguns para expulsar os invasores que estavam 
criando problemas.
Resolveu que no havia outra alternativa; mas, por outro lado, no 
deveria revelar suas intenes aos caseiros.
- Sei que vocs foram corajosos - Vanda disse com delicadeza -, mas isso 
no pode continuar assim.
- No faa nada, srta. Vanda! - disse o sr. Taylor, apressadamente. - Se
fizer, eles podem se vingar na senhorita ou no general.
- Duvido muito - respondeu Vanda. - Afinal, eles no podem entrar assim
abertamente na aldeia, nas casas das pessoas, e sair batendo ou
assassinando os cidados.
- Pois  exatamente o que faro - teimou o caseiro. Vanda arregalou os
olhos.
- Escute, sr. Taylor, o senhor  um homem sensato e sabe to bem quanto
eu que no podemos deixar gente desse tipo nos comandar nem ditar leis.
- Esse pessoal est acima da lei. Vanda meneou a cabea.
- Ningum est acima da lei e ningum tem o direito
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de interferir ou ameaar a vida dos cidados comuns...
- A senhorita no entendeu... - Ann interrompeu-a. Depois olhou para o
marido e disse:
-  melhor dizermos quem so eles...
- No seria correto - o marido retrucou com rispidez, mas, depois de
ponderar, acrescentou: - Bem, j que a srta. Vanda sabe tanto,  melhor
entender que se no ficar calada estaremos em encrenca.
Vanda olhou de um para outro, tentando entender por que estavam com tanto 
medo e decididos a no tomar nenhuma atitude.
Estava com receio de que os invasores resolvessem tomar a casa toda.
A manso Wyn era to bonita por dentro!
De certa forma sentia que cada pea da moblia, cada quadro, cada livro 
da biblioteca lhe pertencia, pois conhecia e amava tudo aquilo desde 
pequena.
A manso Wyn lhe era to familiar quanto sua prpria casa; portanto, 
qualquer dano que sofresse lhe partiria o corao.
Pensou, horrorizada, no que poderia acontecer s valiosas miniaturas 
penduradas nas paredes da sala de estar; aos retratos de Wyn ao longo da 
escada; aos quadros da galeria que fora enriquecida por aquisies de 
cada um dos condes!
Cruzou as mos.
- Precisamos proteger a manso dessa gente horrvel
- disse Vanda. - E se eles saquearem as salas? E se puserem fogo na casa?
- Eles no faro isso, srta. Vanda - disse o sr. Taylor -, s querem se 
abrigar. Mas, se no lhes dermos abrigo, se os expulsarmos, tudo pode 
acontecer.
- Eles podem ficar aqui indefinidamente! - Vanda
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disse.
- Eles iro embora quando acharem conveniente - replicou o caseiro. - S
querem um lugar para descansar e esconder seus cacarecos.
- Esconder seus cacarecos? - Vanda repetiu incrdula. - O que quer dizer 
com isso? O que  que eles tm para esconder?
Novamente os Taylor se calaram, amedrontados.
Vanda comeou a achar aquilo tudo ridculo.
James Taylor era um homem forte, corpulento. Por que, ento, haveria de 
tremer da cabea aos ps s de pensar em uns jovens desordeiros que at 
ento no tinham feito nada de to grave?
- Ouam - ela disse em tom suave -, quero que me deixem falar com meu 
pai. Vocs sabem que ele  muito inteligente e alm disso sempre foi
soldado.
A Sra. Taylor no conteve um grito:
- Soldados? Se vierem aqui, eles nos mataro! Mataro ns dois, srta. 
Vanda! E a senhorita ser a culpada!
Vanda colocou a mo sobre a de Ann.
- Por favor, no se preocupe, no fique to assustada
- disse. - Se no quiser, os soldados no viro. Mas temos de fazer 
alguma coisa!
- No h nada que possamos fazer, essa  a verdade.  melhor ir embora e
esquecer-se de ns - suplicou a caseira. - Ns estaremos bem se no
fizermos nada.
Vanda sentiu estar diante de um obstculo intransponvel e depois de 
refletir por instantes, disse:
- De onde vieram esses homens e quem so. Vocs devem saber!
- Sim, ns sabemos - murmurou o sr. Taylor.
- Ento me digam, para que eu possa entender por que esto assim 
assustados - Vanda disse, encarando o casal.
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Novamente o caseiro olhou por sobre o ombro na direo da porta como se 
temesse a entrada de algum. Depois curvou-se sobre a mesa dizendo baixo:
- Eles so ladres de estrada!
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 CAPTULO II

Cavalgando de volta para casa, Vanda ia pensando o que poderia fazer em
relao aos Taylor.
Eles estavam visivelmente amedrontados com os tais "ladres de estrada".
Tinham lhe pedido quase de joelhos que no contasse a ningum o que 
descobrira nem tentasse expuls-los da ala oeste da manso.
Lembrando-se das histrias que sabia sobre ladres de estrada, Vanda 
entendia o medo dos caseiros.
Seu pai costumava lhe contar que, em seu tempo de juventude, esses 
salteadores representaram uma terrvel ameaa. Sobretudo um dos bandos 
mais famosos, que se chamava: "Knightsof the High Toby".
Vrios elementos desse bando tinham trabalhado com cavalarias e copiavam 
as atitudes de seus amos da aristocracia chegando a ser conhecidos como 
"Os Fidalgos de Estrada".
Havia tambm homens que eram realmente fidalgos e achavam essa a nica 
maneira de ganhar dinheiro.
- Deviam ser muito perigosos... - Vanda comentou enquanto ouvia a 
histria.
- Quase todos acabaram na forca - o pai retrucou.
- E existia mesmo fidalgos verdadeiros praticando atos to desonrosos, 
papai?
O pai pensou um pouco antes de responder:
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- Maclean era de uma boa famlia das Highlands; o pai dele era ministro. 
William, filho de um baro, educado em Eton e comissionado na Marinha 
real.
- E como podem ter descido to baixo?
- Sir Simon Clarke era um baro - prosseguiu o general.
- Parece incrvel que cometessem atos que os baniria completamente da 
sociedade, tornando-os marginais!
- Eles eram exatamente isso - sir Alexander sorriu.
- Mas alguns conservavam as atitudes de sua classe social.
- Quem, por exemplo? - Vanda perguntou, curiosa.
- James Maclean realmente merecia o ttulo de "Fidalgo de Estrada". Certa 
vez, a pistola dele disparou acidentalmente ferindo o famoso Horace 
Walpole no Hyde Park .
Vanda ouvia atenta, sem interromper, enquanto o pai prosseguia:
- Ele chegou a escrever duas cartas a Walpole lamentando o incidente e 
pedindo desculpas.
- Ento, pelo menos ele era um homem de certo modo decente.
- , mas infelizmente havia muitos que eram exatamente o contrrio. - Sir 
Alexander pensou um pouco antes de acrescentar: - Talvez dois dos piores 
fossem o capito James Campbell e seu comparsa sir John Johnson que 
raptou e violentou uma jovem de treze anos dona de uma fortuna de 
cinquenta mil libras.
- E o que aconteceu?
- A jovem foi obrigada, contra a vontade, a casar-se com ele.
- Coitada dela! Que horror!
-  verdade. Sir John Johnson foi enforcado por sua participao no 
rapto, mas o capito James Campbell fugiu
24
para outro pas.
Pensando nessas histrias todas, naquele momento Vanda se perguntava que
tipo de homens seriam aqueles que tinham invadido a ala oeste da manso.
A julgar pelas vozes que ouvira, eles deviam ser to perigosos quanto os 
Taylor imaginavam.
Por outro lado, talvez fossem liderados por algum bemnascido e no to 
violento, isso fazendo-se um julgamento otimista.
Os caseiros, que os tinham visto, achavam-nos perigosssimos e ferozes.
Quando j se aproximava de casa, resolveu que devia mesmo contar ao pai o 
que estava acontecendo, apesar de ter certeza de que ele no poderia 
fazer nada. Mas antes o faria jurar segredo.
De repente, ocorreu-lhe que, se os ladres de estrada eram realmente to 
perigosos quanto se dizia, ela e o pai poderiam estar correndo perigo.
A casa deles era a maior da aldeia e os salteadores poderiam achar que 
fossem ricos.
E como iriam se defender de um bando de homens armados?
Alm dela e o pai, na casa s havia Dobson e Jennie que trabalhavam como 
mordomo e cozinheira, e Hawkins, o ordenana de seu pai que, embora 
estivesse com idade avanada, era indispensvel. Alis, a maioria das 
pessoas da casa era de idade, excetuando-se ela, claro.
Mas, se no contasse ao pai, a quem poderia contar?
Vanda sentiu que carregava um fardo pesado demais.
Tinha de achar um modo de ajudar os Taylor, que dePositavam nela tanta 
confiana. O difcil era saber como.
Levou o cavalo at a cocheira da qual se encarregavam dois cavalarios, 
ambos com mais de cinquenta anos.
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Eles pegaram Kingfisher e o conduziram para uma baia, enquanto Vanda se
encaminhava lentamente para a casa.
Ainda estava indecisa.
Por outro lado, a intuio lhe dizia que no podia ficar de braos 
cruzados complacentemente esperando que os invasores fossem embora.
A soluo era, certamente, discutir o assunto com o pai.
Afinal entrou no gabinete do general e surpreendeu-se por no encontr-lo 
como sempre sentado  escrivaninha e, sim, numa das confortveis 
poltronas diante da lareira.
Sobre seus joelhos jazia um livro que estivera lendo.
Sir Alexander estava reclinado no encosto, de olhos fechados, adormecido.
Vanda ficou contemplando-o.
Embora fosse um homem ainda elegante e bonito, estava comeando a mostrar 
os sinais da idade que tinha.
Os cabelos estavam totalmente grisalhos, quase brancos; ao redor da boca 
havia vincos que ela no notara antes.
Ento, enternecida, resolveu que no devia perturb-lo, tinha de resolver 
o problema sozinha.
Saiu devagarinho da sala e fechou a porta com cuidado atrs de si.
Foi ento que se lembrou do sr. Rushman. Afinal, ele era o administrador 
da propriedade.
Embora fosse velho, poderia, na posio que ocupava, agir em defesa do 
patrimnio de seu patro.
Certamente poderia apelar para as autoridades, escrever ao oficial 
encarregado do quartel que ficava em Melksham, no muito distante dali.
- Achei a soluo! - Vanda disse para si, contente.
Resolveu ir procur-lo de imediato. A casa dele ficava perto do parque, 
poderia chegar l em dez minutos de caminhada.
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Sem se preocupar em trocar seu traje de montaria, saiu assim mesmo.
Entrou no parque pelo porto lateral que sempre usava, e logo avistou a 
pitoresca e confortvel casa branca.
O sr. Rushman vivia ali com a esposa desde que comeara a trabalhar como 
administrador da propriedade.
A esposa dele j havia morrido, mas ele continuava l, onde no se sentia 
to sozinho com o grande nmero de visitas que recebia.
Sempre havia algum aldeo se queixando de um teto com goteiras ou uma 
janela quebrada. E outros, como o mdico, o vigrio, e os membros do 
Clube de Caa que sempre o procuravam como amigo.
O general gostava muito dele e Vanda tambm.
No podia imaginar como no pensara nele antes! Devia at ter aconselhado 
os caseiros a fazer isso.
A governanta do sr. Rushman, uma mulher forte, de meia-idade, abriu a 
porta.
- Que prazer em v-la, senhorita! Tenho certeza de que o sr. Rushman vai 
ficar muito contente.
Sem esperar a resposta de Vanda, saiu apressada pelo hall.
Quando chegou diante da porta do escritrio onde o patro costumava 
trabalhar, virou-se para trs para comentar num sussurro:
- As pernas dele esto doendo muito hoje e  terrvel, Pois, como ele 
prprio ir lhe dizer, est acontecendo algo muito srio.
Impressionada, Vanda fez meno de perguntar algo, mas a governanta no 
lhe deu tempo. J abrira a porta e anunciara:
- A srta. Charlton quer falar com o senhor, sir.
Vanda entrou.
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O sr. Rushman estava sentado numa poltrona de encosto alto, com as 
pernas esticadas sobre uma banqueta. seu lado, numa mesinha, vrios
papis e livros de contabilidade. Estava escrevendo com uma caneta de 
pena de ave.
Ergueu os olhos e sorriu para Vanda que se aproximava.
- Voc  exatamente a pessoa com quem eu queria falar, srta. Vanda. Na 
verdade, ia at mandar-lhe um recado.
- Sobre o qu? - ela perguntou sentando-se numa poltrona perto dele.
- Tenho novidades. Boas notcias. Mas justamente agora estou com 
dificuldade para andar.
- E que notcias so essas?
Num tom grave e circunspecto ele respondeu:
- O conde est voltando para casa!
O conde de Wynstock chegou em Londres.
Fazia muito tempo que estava fora da Inglaterra e tudo mudara muito. E, 
infelizmente, no para melhor, segundo a opinio dele.
As ruas estavam bem mais movimentadas e havia um nmero bem maior de 
mendigos.
Desde que desembarcara em Dover no deixara de notar o grande nmero de 
soldados e marinheiros desmobilizados que vagavam por toda parte, em cada 
cidade que passara.
Era notrio que no tinham o que fazer.
s vezes ficavam apenas sentados na calada, esperando que algum se 
apiedasse de sua situao.
Mesmo enquanto ainda estava na Frana, o conde j ouvira dizer que isso 
estava acontecendo na Inglaterra. Mas, agora que via com os prprios 
olhos, sentia-se mais revoltado.
Depois de ter lutado durante cinco anos contra Bonaparte,
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ningum mais do que ele admirava a coragem e a bravura do soldado
ingls.
E sabia que o mesmo acontecia com os marinheiros.
Era estarrecedor constatar que os homens que sob o comando de Nelson e 
Wellington tinham salvado a Inglaterra fossem tratados de modo to 
vergonhoso.
Decidiu que na primeira oportunidade falaria isso na Cmara dos Lordes. 
Contudo, sabia que haveria muito o que fazer em suas propriedades assim 
que chegasse.
Primeiro precisava abrir a manso Wyn em Berkeley Square, depois a de 
Wiltshire.
O duque de Wellington considerava o conde um de seus melhores oficiais, 
pois possua um talento especial como organizador.
E, sem dvida, o conde tinha conscincia de que iria precisar muito desse 
seu talento para reconstruir sua vida.
Estava com vinte e nove anos e passara grande parte de sua vida ocupado 
com a guerra. Sabia que seria difcil adaptar-se a uma vida completamente 
diferente.
Sentira-se arrebatado pela vida alegre de Paris, depois de ter enfrentado 
as durezas e os perigos dos campos de batalha.
Tinha ido para l com o duque de Wellington, saindo de Cambrai onde 
estava sediada a tropa de Ocupao.
No incio, ficara fascinado e deslumbrado com as belas e extravagantes 
cortess. E depois, admirado com a maneira pela qual os franceses se 
adaptaram da noite para o dia  paz, depois da derrota de Napoleo  
Bonaparte.
Paris voltara a ser uma cidade de prazeres e o conde no seria humano se 
no aproveitasse as horas de folga para desfrut-los.
Envolvera-se em vrios romances ardentes e divertidos com as mulheres
mais sofisticadas e experientes da Europ.
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At que deparara com lady Caroline Standish.
Ela era linda, extica, e o escolheu assim que o viu, como se fosse uma
caadora e ele sua presa.
Viva desde os vinte e um anos, ela procurava tirar o melhor proveito do 
fato de manter relaes com vrias das melhores famlias aristocrticas.
Por obra dessas amizades, conseguira chegar a Paris assim que as lutas 
cessaram.
Muito rica, ela dava festas magnficas para todos os homens atraentes do 
Exrcito britnico. Essas festas eram muito concorridas e rivalizavam com 
as dadas pelas cortess.
O conde no sabia como, mas em todo lugar que ia sempr encontrava lady
Caroline. Sem querer, acabava vendoa quase todos os dias.
E foi assim, por insistncia dela, que passou a v-la tambm todas as 
noites.
S quando j era quase tarde demais  que ele percebeu que Caroline no 
procurava s diverso, mas tambm casamento.
Uma das decises, entretanto, que tomara durante a guerra era a de no se 
casar cedo.
Ouvira muitas histrias sobre esposas infiis.
Um de seus oficiais contara-lhe, cheio de amargura, que acabara de 
receber carta de um parente informando-o da infidelidade da esposa.
Outro sargento contou que a me lhe escrevera dizendo que sua mulher fora 
embora com o dono do bar, levando tudo o que havia dentro da casa.
E por a seguiam histrias, sem fim, de homens trados por suas esposas 
com o melhor amigo: o carteiro, o proprietrio da casa ou o jardineiro.
O conde sendo um bom oficial tinha um timo relacionamento
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com seus comandados e acabava ouvindo suas confidncias.
Foi ento que comeou a duvidar que existisse alguma mulher merecedora de 
confiana.
Jurou para si que quando se casasse haveria de ser com uma mulher que 
amasse de verdade e que no o fosse trair to logo virasse as costas.
Teria de ser uma mulher honrada e virtuosa como fora sua me. Pois 
preferiria matar a esposa a dividi-la com outro homem.
Contudo, ele no seria normal se no tivesse sucumbido  envolvente e 
sedutora lady Caroline.
Ela foi se insinuando e sorrateiramente prendera-o numa teia. O conde s 
teve conscincia disso quando falou em voltar para casa.
- Espero poder partir no ms que vem - dissera a Caroline.
Estavam jantando na casa que ele alugara junto com outro oficial enquanto 
permaneciam em Paris, pois era muito tedioso ficar na embaixada britnica 
com o duque.
Ficar em hotis era impraticvel. Alm de haver poucos, eram 
desconfortveis e sujos.
A casa que seu amigo alugara tinha pertencido a um dos novos-ricos das 
relaes de Napoleo. Estava muito bem mobiliada, com peas caras, e os 
criados gostaram de trabalhar para dois ingleses que pagavam seus 
salrios com Pontualidade.
O amigo do conde raramente ficava l e, por isso, ele Quase sempre 
jantava a ss com lady Caroline.
Era impossvel no reconhecer a beleza esplendorosa da moa.
Filha do duque de Hull, arrebatou a sociedade londrina assim que apareceu 
como debutante. Fez um bom casamento
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com um jovem de famlia aristocrtica e tambm extremamente rico.
A morte dele, porm, no a afetou muito, pois comeara a se aborrecer com 
o marido e j buscava diverso com vrios amantes bem antes de ficar 
viva.
Caroline Standish era suficientemente esperta para saber que sua beleza 
no duraria para sempre.
Suas extravagncias tanto na Inglaterra quanto na Franca tinham 
dilapidado consideravelmente sua fortuna, por isso estava  procura de um 
marido que fosse rico e importante.
E quem melhor do que o conde de Wynstock?
Seus cabelos dourados brilhavam  luz das velas. O vestido, de cintura 
alta, tinha um decote bastante revelador.
Depois de dizer que ia voltar para casa, o conde perguntou com 
displicncia:
- Voc vai continuar aqui?
Lady Caroline fitou-o, surpresa, com seus enormes olhos azuis.
- Ora, Neil, mas  claro que sabe que eu vou com voc! O conde retesou-
se.
Achava Caroline extremamente atraente, mas no tinha a menor inteno de
chegar em Londres com ela.
Sabia que a famlia o esperava, alm de muitos afazeres em suas 
propriedades, e certamente sua av, tias, primas e os amigos delas 
ficariam muito chocados com tal atitude.
Fez-se um silncio prolongado, depois Caroline disse, em voz baixa e 
sedutora:
- Eu amo voc e, se no posso viver sem voc, sei que tambm no pode 
viver sem mim.
Ela, entretanto, foi bastante esperta para no continuar a conversa, pois 
percebeu ter constrangido o conde. Quando ele foi lev-la para casa,
Caroline usou de todas
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as sutis artimanhas para faz-lo ficar e despertar-lhe o desejo.
Como era bastante experiente e ele um homem ardente, no foi difcil. Bem 
mais tarde, j saciada a paixo, estavam deitados lado a lado na grande 
cama com dossel.
Havia apenas a tnue luz de um candelabro.
Caroline chegou mais perto e disse:
- No existe amante melhor do que voc, meu amor! Ah, querido, ns vamos 
ser muito, muito felizes juntos.
O conde, que j estava quase adormecendo, pressentiu o perigo, do mesmo 
modo como acontecia quando estava em batalha.
Percebeu que Caroline escolhera o momento em que ele estava mais 
vulnervel para pression-lo.
Ele bocejou, antes de dizer:
- Preciso voltar para casa, o duque quer que eu tome o caf da manh com 
ele!
Caroline acariciava-lhe o corpo e aproximou os lbios dos dele.
- Quero que fique comigo... - murmurou. - No posso perd-lo nem que seja 
por este resto de madrugada.
O conde ergueu-se da cama.
- Se h uma coisa de que eu no gosto - ele disse como se no a tivesse 
ouvido -  ter de discutir estratgia no caf da manh!
- Voc no est me ouvindo! - Caroline reclamou, Petulante.
- Desculpe - retrucou o conde -, mas estou realmente cansado.
Vestiu-se depressa, enquanto Caroline o observava. Reclinada sobre os 
travesseiros, parecia to bela e translcida quanto uma prola numa caixa
de veludo.
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O conde, porm, encaminhou-se para a porta.
- Boa noite, Caroline.
- Voc nem me beijou para se despedir. Que maldade... - lamuriou-se,
estendendo-lhe os braos alvos.
O conde sabia muito bem que podia cair numa armadi lha se voltasse.
Se ela o enlaasse pelo pescoo, ele se desequilibraria e cairia em cima
dela, o que era exatamente o que Caroli ne pretendia.
Por isso, Neil segurou-lhe as mos de leve e beijou uma, depois a outra.
- Obrigado por me fazer feliz - disse, e saiu fechando a porta atrs de 
si, sem dar ouvidos aos protestos enfurecidos dela.
Sua carruagem esperava-o l fora. Entrou e mandou que tomassem o caminho 
de casa. Foi o trajeto todo pensando, preocupado, em como escapar do 
casamento com Caroline. Admitia que fora estupidez deixar-se envolver 
assim em tal situao.
As pessoas em Paris j associavam os nome deles dois. Sem dvida os 
mexericos j deviam ter alcanado Londres tambm.
Percebia tarde demais que deveria ter evitado aparecer sempre ao lado 
dela em pblico.
Caroline era bastante esperta para saber usar a opinio pblica a seu 
favor, quando lhe convinha.
Quando afinal se deitou ainda estava pensando desesperadamente no que 
fazer e ficou ainda um bom tempo remoendo a questo.
Seu camareiro acordou-o cedo, pela manh, e, depois de um banho frio, o
conde vestiu o uniforme e saiu apressado rumo  embaixada britnica.
Para seu alvio, no havia outros convidados  mesa do
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 caf. Ele e o duque discutiram vrias propostas feitas pelos
franceses.
Eles estavam fazendo tudo o que podiam para reduzir o contingente da
tropa de Ocupao.
De repente, o conde teve uma ideia.
- O que Vossa Alteza acharia de me mandar de volta para Londres o mais 
breve possvel?
O duque lanou-lhe um olhar penetrante, como se adivinhasse haver um 
motivo oculto em tal pedido. E o conde percebeu que ele sabia.
- Voc quer voltar para casa? - perguntou o duque.
- Se o senhor puder me dispensar.
O duque refletiu por instantes, depois disse:
- vou sentir sua falta, sem dvida. - Sorriu antes de prosseguir: - Mas 
sei que voc poderia ter recusado ficar comigo aqui este ano, alegando a 
justificvel necessidade de resolver os negcios da famlia.
O conde inclinou a cabea e o duque continuou:
- Acho que posso adivinhar o motivo que o faz querer partir e, se aceita 
meu conselho, acho que deve ir sem despedidas e evitar recriminaes ou 
lgrimas.
O conde sorriu discretamente sabendo que o duque falava por experincia 
prpria, tendo se envolvido em vrias situaes semelhantes.
-  muita gentileza sua, Alteza. Se eu puder fazer como me diz, ser bem 
mais fcil.
- Pois bem - retrucou o duque. - Eu ordeno que parta amanh.
- Obrigado.
- vou lhe dar umas cartas para que as entregue ao primeiro-ministro e, 
como naturalmente so secretas, voc partir sem que ningum saiba.
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- Obrigado, mais uma vez! Mil vezes obrigado!
Assim, tudo ficara bem mais fcil do que imaginara.
Naquela noite Neil jantou com Caroline. Felizmente havia outros homens
presentes.
Ela estava deslumbrante, encantando a todos com sua beleza e vivacidade
de esprito.
Flertava abertamente com todos os homens, desde o mais velho ao mais
jovem.
Certamente j estava se imaginando na manso Wyn, em Berkeley Square,
como anfitri, recebendo os amigos do conde e usando as famosas jias dos
Wynstock.
Caroline estivera l, certa vez com o pai, e jamais esquecera.
O conde percebeu a inteno dela pelo modo provocante como o olhava.
Porm, sem se deixar envolver, despediu-se por volta de uma hora.
Percebeu que Caroline ficou contrariada por ele no ter ficado at que
todos os convidados fossem embora.
- Preciso levantar muito cedo amanh - ele disse, o que era verdade.
Entretanto, ela no imaginava o motivo. Pensou que fosse apenas algum
compromisso de rotina, pois disse baixinho:
- Ento venha me ver assim que ficar desocupado. E lanou-lhe um olhar
insinuante.
Logo no incio do relacionamento, o conde achava-a irresistvel,
desejava-a a ponto de no conseguir pensar em mais nada.
Por vrias vezes, a convite dela, fora v-la de manh. E, sem dvida,
Caroline era deslumbrante com os cabelos dourados soltos sobre os ombros
nus.
Em geral, nessas ocasies usava pouca coisa alm de um colar de
esmeraldas ou um de prolas negras que contrastavam
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com a alvura de sua pele.
O conde admitia que estivera apaixonado e terrivelmente fascinado por 
ela. Mas um romance ardente era uma coisa e casamento era outra bem 
diferente.
No podia imagin-la como sua esposa, a condessa de Wynstock, sem 
imagin-la tambm recebendo algum homem em seus aposentos particulares, 
enquanto os criados comentavam entre risinhos abafados.
Saindo de Paris a caminho de Calais, sabia que estava fugindo. Contudo, 
agia como um astuto general que reconhecia o momento exato de se retirar 
diante de uma situao de desigualdade.
Assim que chegou em Londres, Neil descobriu que havia milhares de coisas 
a fazer.
Antes de mais nada, levou os documentos secretos ao primeiro-ministro.
O conde de Liverpool quis ainda ouvir muitos detalhes sobre o Exrcito
de Ocupao que no estavam nos relatrios que recebera.
Depois, o conde achou que devia ir ver o prncipe regente. Se no fizesse 
isso, acabaria na lista negra em Carlton House.
O prncipe ficou encantado ao v-lo e insistiu para que ficasse para o 
almoo e o jantar com outros amigos.
O conde era jovem e interessante, qualidades que Sua Alteza real estava 
sempre buscando.
Pediu tambm ao conde que o acompanhasse s corridas em Epsom, a um 
almoo em Wimbledon e a uma demonstrao de esgrima no Ginsio do Fidalgo 
Jackson.
Entre essas atividades, o conde contratou criados para sua casa em 
Berkeley Square e comprou cavalos no Tattersall's Sale Rooms.
Os convites comearam a chover assim que as grandes
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anfitris da sociedade londrina souberam de sua volta. Alm disso, havia
encontros com velhos amigos no White's
 Club, que o punham a par das mais recentes novidades
em entretenimento, falando das belas danarinas novas
em Covent Garden. Podia agora desfrutar de todos esses prazeres que no
conhecera antes de ir viajar. E o prncipe era agradvel e
espirituoso.
Era quase como Paris, embora nada substitusse os prazeres que Caroline 
lhe dava.
Ao pensar nela ficou imaginando se teria mesmo escapado ou se ela iria 
segui-lo at l, na Inglaterra.
Mas, depois de uma semana sem ter notcias, achou que ela no teria 
coragem de abandonar Paris, e j estava se sentindo livre quando, certo 
dia, no clube, um de seus amigos ntimos disse:
- Acabei de saber que sua amiga voltou para Londres. O modo como falou e 
a expresso dos olhos fizeram o
conde perder o flego.
- De quem est falando? - perguntou, mas nem precisava ouvir a resposta.
- De Caroline Standish.
Ento o conde tomou uma deciso repentina. "Pois ento vou para o campo 
amanh bem cedo", pensou.
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CAPTULO III

Por instantes, Vanda apenas fitou, atnita, o sr. Rushman, at que em
tom de surpresa disse:
- O conde vai voltar para casa? Quando?
O sr. Rushman olhou para a carta que estava sobre a mesa a seu lado.
- Ele diz que sair de Londres na quarta-feira, que  hoje. Isso 
significa que chegar aqui na sexta.
Vanda no disse nada e ele prosseguiu:
- Ele pede que eu mande dois dos melhores cavalos at o Dog and Duck em 
Gresbury.
Olhou para Vanda e acrescentou:
- Voc sabe to bem quanto eu, srta. Vanda, que no temos nenhum animal 
nas cocheiras que sirva para o conde montar.
Ela sabia que era verdade.
Quando o velho conde morreu, os cavalos j estavam com idade avanada e, 
aos poucos, foram morrendo tambm.
Os que sobraram eram apenas teis para os cavalarios irem at a aldeia 
comprar mantimentos.
Vanda notou a preocupao do administrador e aPressou-se em dizer:
- Sei que papai se dispor com prazer a mandar dois cavalos nossos para 
que o conde faa a viagem at aqui.
-  muita gentileza de vocs. Assim o conde chegar
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mais depressa e bem-disposto.
Sorriu com ar pensativo e Vanda teve a impresso de ele estava lembrando 
do conde como o tinha visto pela ltima vez: muito jovem, cheio de vigor 
e entusiasmo, um excelente cavaleiro.
- H tantas outras coisas a fazer! - prosseguiu o sr. Rushman. - Tenho 
certeza de que o conde no vai se lembrar de que a manso foi fechada e 
que os criados foram despedidos ou se aposentaram.
- Buxton ainda est morando na aldeia - Vanda dis se, lembrando-se do 
antigo mordomo de figura imponente e marcante.
- Eu tambm me lembrei disso e graas a Deus a sra. Medway est viva.
- O senhor acha que eles voltaro?
- Tenho certeza de que sim, se voc lhes pedir isso. Pelo menos que eles 
fiquem at que arranjemos outros serviais mais jovens para ocupar o 
lugar deles.
- Eu? O senhor quer que eu pea isso a eles?
O administrador fez um gesto eloquente com as mos.
- Quando recebi a carta, fiquei imaginando quem poderia me ajudar e como 
eu faria para ir falar com Buxton e a sra. Medway.
Fez uma pausa antes de acrescentar:
- S se fosse me arrastando - e olhou para as perna" semi-invlidas.
- O senhor sabe que eu farei qualquer coisa que precisar e vai ser muito 
bom ter a manso cheia de gente, com o conde no comando!
- Infelizmente as coisas no esto mais como eram, mas os Taylor se 
esforam para cuidar de tudo.
S ento Vanda notou que com a euforia da novidade esquecera os caseiros 
e principalmente o motivo por que
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fora procurar o sr. Rushman.
Entretanto, agora que sabia que ele estava to cheio de preocupaes 
sentiu que no podia acrescentar mais uma  lista. i
Afinal, se os invasores no quisessem sair, ele pessoalmente no poderia
fazer nada. E se o conde estava a caminho ningum melhor do que ele para
defender sua propriedade. Ento Vanda ergueu-se.
- vou falar com Buxton e a sra. Medway. Acho que eles podero arranjar 
outros criados na aldeia - ela disse.
- S receio que o conde encontre a casa toda empoeirada!
- No se preocupe com isso, sr. Rushman. Os Taylor tm cuidado muito bem 
de tudo e as faxineiras, que vm uma vez por semana, mantm tudo limpo e 
brilhante exatamente como no tempo do pai do conde.
Ele suspirou aliviado.
-  uma preocupao a menos para mim, srta. Vanda! Ela sorriu.
- Ser que posso me atrever a lhe pedir ainda - prosseguiu o 
administrador - para falar com a sra. Jacobs e ver se ela pode assumir a 
cozinha enquanto eu procuro um chef de cuisinel
- Ela est muito velha, mas acho que poder ao menos dirigir as
cozinheiras.
Vanda refletiu por uns instantes e prosseguiu:
- A sra. Taylor cozinha muito bem e h muitas mulheres na aldeia que
podem ajud-la.
- Voc  um anjo que me caiu do cu quando eu j estava quase 
desesperado!
- E espera que eu volte para l! - Vanda brincou, rindo. - Agora vou 
tratar de procurar as pessoas importantes
41
para o bem-estar do conde! Depois voltarei para informar o senhor
dos arranjos que consegui. - Obrigado, muito obrigado! E diga a seu pai
tambm o quanto lhes sou grato.
Vanda saiu apressada.
Sabia mais do que ningum que no havia tempo a per der e muitas 
providncias a tomar para que o jovem fosst to bem servido como nos bons 
tempos.
Vanda tinha apenas dez anos na ocasio em que o jo vem conde se formou em 
Oxford e foi para a cavalaria como era de praxe na famlia.
Depois, o jovem visconde, ttulo que possua ento, voltou para casa umas 
duas vezes no ano seguinte, at que saiu da Inglaterra e ningum mais o 
viu.
 claro que escrevia ao pai, que sempre mostrava as cartas a sir 
Alexander. Ambos temiam por ele sabendo que a guerra estava no auge.
Parecia at um milagre ele ter sobrevivido entre tantos que perderam a 
vida, mas graas a Deus sobrevivera e estava voltando!
Vanda ia refletindo sobre isso tudo enquanto caminhava apressada para a 
aldeia. Ela no queria que o conde encontrasse a casa fechada, os Taylor 
apavorados e salteadores instalados na ala oeste.
Em pouco tempo chegou a uma pequena mas simptica casinha onde Buxton, o 
mordomo, passara a morar depois de aposentado.
A casa pertencia  propriedade Wyn, estava em perfeito estado de 
conservao, e fora recentemente pintada.
O jardim, muito bem cuidado, ostentava uma profuso de flores.
Enquanto se encaminhava para a porta, Vanda se perguntou se Buxton no 
estaria velho demais para fazer o
42
que iria pedir a ele.
Foi ele mesmo quem abriu a porta e Vanda achou-o com uma aparncia
saudvel, embora seus cabelos estivessem totalmente brancos.
- Mas que surpresa, srta. Vanda! Sem dvida, muito agradvel! - 
acrescentou, Buxton logo. - Entre, por favor.
- Obrigada - Vanda respondeu e entrou na cozinha onde Buxton passava a 
maior parte do tempo.
A sala era pequena e reservada apenas para ocasies muito importantes.
Vanda sentou-se numa cadeira diante do fogo e foi dizendo:
- Tenho novidades para o senhor. O conde voltou para a Inglaterra e 
estar chegando aqui sexta-feira.
- Sexta-feira! - exclamou Buxton, surpreso.
- , e como o sr. Rushman est muito doente para vir lhe falar 
pessoalmente, pediu-me que viesse lhe perguntar se o senhor pode 
providenciar para que a casa esteja em ordem para receber o conde.
Falou olhando para o velho mordomo e por um instante teve a impresso de 
que ele iria recusar. Ento ele sorriu e seus olhos se iluminaram.
- O sr. Rushman me dar carta branca para agir, srta. Vanda?
- Pode contratar quem o senhor quiser e fazer o que achar melhor!
- Est bem, srta. Vanda, vou tentar me esmerar, mas no precisarei 
contratar muita gente.
- O sr. Rushman disse que o senhor pode contratar a aldeia inteira, se 
quiser, contanto que a casa fique em ordem.
Buxton riu.
Vanda sorriu, aliviada, sentindo que essa etapa j estav
43
vencida.
Na casa da sra. Medway aconteceu quase a mesma coisa, s que, sendo
mulher, ela precisou de um pouco de elo gios e adulao para aceitar o 
pedido.
- S a senhora sabe como arrumar tudo da maneira correta! - insistiu
Vanda. - E o pior  que se a senhora recusar acho que o sr. Rushman 
capaz de morrer de preccupao.
- Bem, vou fazer o que posso... - disse afinal a sra. Medway ainda
relutante. - J estou velha demais para lidar com essas criadas jovens
que acham saber mais do que eu.
Vanda concordou com ela que os jovens estavam cada vez mais arrogantes e
menos respeitosos.
Quando por fim se despediu, Vanda notou que a mulher j estava pensando 
em quem iria contratar na aldeia.
Vanda tranquilizou-se afinal. Sabia que com a sra. Medway e Buxton, o 
conde haveria de encontrar tudo em ordem quando chegasse.
Foi ento procurar a sra. Jacobs, que concordou em aceitar o pedido sob a 
condio de ter uma carruagem para
transport-la.
S quando j estava a caminho de casa  que Vanda voltou a se preocupar 
com o problema dos invasores. Ento, lembrou-se de uma histria 
assustadora que o pai lhe contara, havia muitos anos, de um ladro 
chamado Watson que atacara e torturara um mercador de diamantes, 
obrigando-o a entregar-lhe metade de sua fortuna.
Watson e seu cmplice tinham capturado o mercador quando ele voltava para 
casa nos arredores da cidade. Levaram-no para um galpo abandonado, no 
campo, e l foraram-no a assinar um cheque de vrios milhes de libras.
44
Como Watson tinha uma boa aparncia e sabia se fazer apresentvel, o 
gerente do banco entregou a quantia sem question-lo ou desconfiar de 
nada.
Em seguida, partiram deixando o prisioneiro amarrado, totalmente indefeso 
e muito machucado, naquele lugar deserto.
Ele foi encontrado, acidentalmente, por algumas crianas. Estava vivo
ainda, mas completamente desnutrido e muito fraco.
As torturas que sofrera afetaram-lhe a sade a ponto de causarem sua 
morte dois anos mais tarde.
Os dois ladres acabaram sendo presos e enforcados pelo roubo.
Vanda sentiu um arrepio de horror ao pensar que algo semelhante pudesse 
acontecer ao conde.
 verdade que haveria um grande nmero de criados espalhando-se pela casa 
e a chegada deles poderia fazer com que os ladres fugissem.
Mas e se ficassem escondidos em outro lugar do condado  espera de 
encontrar o conde cavalgando sem companhia?
Quantos eles seriam? Devia ter perguntado aos Taylor!
O conde poderia cair em alguma armadilha! O que poderia fazer para evitar 
isso?
Estava to mergulhada em seus devaneios que quase no percebeu que 
chegara em casa.
Dirigiu-se primeiro s cocheiras e falou com os cavalarios dizendo-lhes 
que levassem dois dos melhores cavalos de carruagem de seu pai ao Dog and 
Duck em Gresbury.
Os cavalarios gostaram da novidade.
- Nossos cavalos esto mesmo precisando de exerccio, srta. Vanda - disse 
o mais velho.
- Ns fazemos eles andarem por aqui - intrometeu-se
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o outro -, mas outro dia mesmo estvamos comentando que eles esto
ficando gordos e cavalos gordos ficam preguiosos!
- Pois vo ter de correr bastante, j que o conde est com pressa de
chegar em casa.
- Isso vai fazer bem para os cavalos - retrucou um dos cavalarios.
Vanda correu para dentro da casa. O pai, que estava trabalhando no livro, 
ficou muito animado com a notcia.
- Eu j estava me perguntando quando afinal esse jovem ia resolver voltar 
para casa! - comentou. - Estou ansioso para falar com ele.
- J sei que vai querer falar sobre a guerra o tempo todo, papai! - 
protestou Vanda. - Mas h muita coisa para o conde fazer aqui na 
propriedade e os fazendeiros esto perguntando por ele h bastante tempo 
j.
- Neil sempre foi um bom rapaz - replicou sir Alexander. - E provou ser 
um excelente soldado. No tenho a menor preocupao sobre o seu futuro.
Vanda desejou poder dizer o mesmo. Assim que terminaram o jantar, ela 
subiu para deitar-se.
Sozinha em seu quarto, pensou mais uma vez em como poderia prevenir o 
conde a respeito dos salteadores e o que ele iria fazer.
Certamente no iria enfrent-los sozinho. Talvez ele achasse mais correto 
avisar o quartel e convocar soldados para prender os ladres por 
invaso de propriedade.
Vanda tinha um pressentimento de que isso poderia acabar em uma grande 
troca de tiros, com homens feridos e at mortos!
Mas provavelmente os bandidos no iriam permanecer na casa assim que 
percebessem a movimentao de criados.
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Seria tolice ficar.
Talvez fugissem para os bosques, principalmente o Bosque do Monge, onde 
os vira pela primeira vez.
Ento a histria do mercador de diamantes voltou-lhe  mente e mais uma 
vez Vanda teve a certeza de que o conde estava correndo perigo.
"S h uma coisa que posso fazer!", concluiu afinal. "Avis-lo antes que 
chegue em casa! Como no pensei nisso antes? "
Se os cavalos podiam ir para Gresbury, ela tambm podia!
Os cocheiros iriam lev-los na quinta-feira para que os animais pudessem 
descansar uma noite no Dog and Duck.
Mas se ela sasse na sexta-feira, assim que nascesse o sol, montando 
Kingfisher, poderia chegar  taberna na hora do caf da manh, antes que 
o conde partisse.
Pensou e repensou a ideia e acabou decidindo que cavalgaria ao lado da 
estrada. Assim, se no conseguisse alcan-lo na taberna, ela o veria 
passar.
Acordou cedo de manh e foi at a manso ver como estavam os 
preparativos.
Encontrou a sra. Taylor tentando organizar um verdadeiro exrcito de 
mulheres que tinham vindo da aldeia por ordem da sra. Medway.
Todas falavam animadamente, comentando sobre o conde, e Vanda logo 
percebeu que os caseiros nada haviam falado sobre os ladres.
Percorreu vrios aposentos da manso e viu que as janelas estavam 
abertas, os vidros limpos e o sol entrando dava a tudo um aspecto 
aconchegante. Encontrou o caseiro sozinho na despensa, organizando os
mantimentos que estavam chegando das fazendas: lebres, patos, galinhas,
centenas de ovos.
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Em voz baixa, para que ningum a escutasse, Vanda perguntou:
- Eles j foram?
No havia necessidade de explicar a quem se referia.
- Ontem  noite ainda estavam l, srta. Vanda - respondeu o sr. Taylor em 
tom conspirador.
Vanda afastou-se dali e encaminhou-se para a ala oeste, passando
sorrateiramente pelo jardim.
As janelas do andar trreo estavam fechadas. Parou dian te de uma delas, 
que dava para a sala principal, e ps-se  escuta atentamente.
No ouviu nenhum rudo e rezou para que os invasores tivessem percebido a 
movimentao e ido embora.
S no tinha certeza se isso melhorava ou piorava as coisas.
E se eles estivessem no bosque, de tocaia, esperando o conde para um 
ataque de surpresa?
Vanda chegou em casa decidida a ir avisar o conde no caminho, antes que
chegasse em casa. Quem sabe, at, ele resolvesse voltar para Londres? Ou
talvez fosse buscar ajuda no quartel.
Era insuportvel no saber qual seria a reao dele.
Contudo tinha certeza de que precisava avis-lo para que ficasse 
prevenido.
Sir Alexander falou sobre o conde durante todo o almoo. Estava todo 
entusiasmado de ter lhe emprestado seus cavalos.
Relembrou sua amizade com o falecido conde e as coisas sobre as quais 
conversavam.
Vanda achava bastante sensata a ideia do jovem conde dormir na taberna 
para chegar no dia seguinte bem cedo. Se chegasse  noite estragaria o 
prazer da acolhida. Contudo, isso tornava mais difcil o plano de ir ao 
encontro
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dele.
s vezes sentia a conscincia pesada por estar guardando segredo sobre os 
invasores.
Mas o que poderia fazer seu pai, ou o sr. Rushman, sem ajuda?
Isso justificava o fato de guardar para si o problema e tentar resolv-lo 
sozinha.
- Depois que eu salvar o conde eles me daro razo
- disse para si e ps-se a rezar pedindo ajuda a Deus.
O conde descobriu que no era to fcil sair de Londres rpida e 
secretamente na quarta-feira como pretendia.
Tinha planejado partir para o campo logo depois do caf. Porm, assim que 
acordou disseram-lhe que havia um recado urgente do primeiro-ministro.
O conde de Liverpool desejava que ele fosse pessoalmente explicar aos 
membros do Gabinete as ltimas exigncias dos franceses em relao ao 
Exrcito de Ocupao e a deciso do duque de Wellington de mandar de 
volta para casa dez mil homens.
Era impossvel ao conde recusar tal pedido, por isso encaminhou-se a 
Dowming Street na esperana de no precisar demorar-se muito.
Porm foi otimista demais.
A reunio prolongou-se at a hora do almoo e depois no teve como 
recusar o convite para almoar com o Primeiro-ministro.
Chegou em casa to tarde que resolveu adiar a viagem Para o dia seguinte. 
Era desagradvel, mas no havia outro jeito.
Decidiu ento ir ao White's para encontrar os amigos.
- Voc vai ao Devonshire hoje  noite? - perguntoulhe um deles. -  s um
baile simples, mas eu sempre gosto
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de tudo o que a duquesa organiza.
- Ainda no decidi - Neil retrucou evasivo.
- Tem algum que vai ficar decepcionado se voc no for - o amigo 
respondeu irnico -, pois dever sentar se a seu lado em Carlton House.
Ento o conde lembrou que o prncipe regente o convidara para jantar 
antes do baile e ele aceitara. Agora arrependia-se disso.
Caroline, sem dvida, como era de costume, iria fazer de tudo para 
mostrar aos outros que era dona dele.
Ir a Carlton House iria apenas dar margem a mais mexericos que j estavam 
se tornando perigosos e incmodos.
Um homem podia facilmente ser levado a um casamento por presso da 
opinio social.
Os mexericos ainda poderiam acabar prendendo-o a uma situao da qual 
seria impossvel fugir.
- O que posso fazer? - perguntava-se ele repetidas vezes, em desespero.
Lamentava no ter conseguido partir pela manh para a manso Wyn conforme 
desejava.
Saiu do White's apressado e encaminhou-se para casa, onde foi escrever 
uma carta para o regente, desculpando-se por no poder cumprir o
compromisso assumido. Disse ter sido subitamente acometido por um forte
resfriado, que o impossibilitava de comparecer ao jantar.
"Alm de eu no estar em boas condies fsicas, seria imperdovel de 
minha parte expor Sua Alteza ao risco de contaminao. "
O prncipe regente era extremamente preocupado com a sade e o conde 
sabia que essa desculpa no seria tomada por ele como um insulto, mas sim
como uma preocupao atenciosa.
O conde mandou um cocheiro a Carlton House levar
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a carta.
Depois jantou sozinho, tendo dado ordens para ser acordado s seis horas 
da manh no dia seguinte.
s seis e meia sua carruagem deveria estar pronta para partir. O 
camareiro com a bagagem j partira. Levara tambm um cozinheiro e vinhos, 
e com ele seguiram os cocheiros levando os quatro cavalos para a taberna.
O conde contava chegar  manso Wyn no dia seguinte na hora do almoo.
Acordou, de repente, com algum abrindo a porta de seu quarto. Imaginou 
que fosse o criado indo cham-lo.
Entreabriu os olhos e viu algum aos ps da cama segurando um candelabro.
Firmou a vista e, para seu espanto, descobriu que era Caroline!
- Caroline! - exclamou. - O que est fazendo aqui a esta hora da noite?
Ela sorriu, insinuante; usava um sofisticado vestido de noite e um 
magnfico colar de brilhantes.
- Voc no apareceu em Carlton House nem no baile... Eu precisava ver 
voc!
Neil sentou-se na cama.
- Voc deve estar louca vindo aqui assim de madrugada! Pense no que os 
outros iro dizer se souberem!
- S quem sabe que estou aqui  seu lacaio da noite.
- E o seu cocheiro? Caroline encolheu os ombros.
- Eles so pagos para servir e no para comentar; alm do mais, pouco 
importa a opinio de criados!
O conde no retrucou, ficou apenas olhando-a.
- V embora, Caroline - disse, afinal. - E comportese. Voc pode fazer 
esse tipo de coisa em Paris, mas no em Londres!
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- E quem vai me impedir? - ela retrucou, com ar provocante desabotoando o 
vestido.
- Voc est se portanto de modo abominvel, Caroline! No tem nenhum 
direito de vir a minha casa dessa maneira e eu insisto para que saia 
imediatamente!
Caroline riu.
Um riso alegre que ecoou na penumbra do quarto.
Neil estava tentando achar um meio de faz-la sair dali quando, com um 
sensual meneio dos ombros, ela deixou cair o vestido.
Por instantes ela ficou imvel e,  luz das velas, parecia uma esttua de 
Afrodite.
A pele alva impecvel estava adornada apenas pelo colar, que parecia 
transmitir seu brilho  ctis translcida.
E, ento, antes que o conde pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, ela 
atirou-se nos braos dele envolvendo-o com os seus e colando os lbios 
aos dele, incendiando-o de desejo.
J estava quase amanhacendo quando o conde conseguiu convencer Caroline a 
ir embora.
Ficou vendo-a vestir-se, sem fazer meno de levantarse ou acompanh-la 
at a porta da rua.
- Vamos almoar juntos? - perguntou ela, enquanto prendia os cabelos 
diante do espelho.
- Eu vou ao campo, Caroline.
- Campo? Ento eu vou com voc,  claro!
- No, Caroline. Isso  impossvel.
- Por qu? Voc sabe que estou louca para conhecer a manso Wyn!
- Duvido que voc goste! Nem sei em que estado vou encontrar a casa, 
fechada desde a morte do meu pai, s com os caseiros tomando conta!
-  claro que vou gostar, estar junto de voc  o que
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importa... - disse com voz aveludada.
- Deve estar tudo empoeirado, tetos com goteiras, camas midas e mofadas 
e ratos por toda parte!
Caroline no pde evitar um gritinho de horror, mas retrucou:
- No  possvel que esteja to ruim assim!
- Pois eu acho que est pior ainda! Depois que eu organizar as coisas e 
deixar tudo como era antes de eu ir para a guerra, ento quem sabe eu me 
anime a convidar pessoas e dar festas.
Os olhos de Caroline se iluminaram.
- Festas? E eu serei sua anfitri, naturalmente, Neil querido! Que ideia 
maravilhosa! Ns podemos convidar o prncipe regente! Hoje mesmo, ao 
jantar, ele estava dizendo que gostaria muito disso.
O conde se retesou. Sabia muito bem o que Caroline quisera dizer com "ns 
podemos convidar". Se falara daquela maneira ao prncipe regente, ele
devia estar pensando que estavam noivos. Apertou os lbios num sinal 
evidente de desagrado.
Temendo ter ido longe demais, Caroline acrescentou rapidamente:
- Eu no disse a Sua Alteza que estvamos noivos, mas acho que ele 
desconfia disso.
- Ns no estamos noivos! - Neil disse enrgico. Como j lhe disse, 
Caroline, no pretendo me casar enquanto tudo que possuo no estiver em 
perfeita ordem!
- Mas quando estiver eu serei a esposa perfeita para voc. - Ela 
encaminhou-se para a porta. Antes de abrila, porm, virou-se e disse:
- Neil, querido, espero notcias suas antes do fim da semana que vem, 
seno vou aparecer sem ser convidada e talvez leve sua Alteza Real 
comigo...
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Sem esperar pela resposta do conde, ela esgueirou-se pela porta que 
fechou cuidadosamente atrs de si.
O conde, furioso, deixou-se cair sobre os travesseiros, perguntando pela 
milsima vez o que haveria de fazer para fugir de Caroline.
Sabia que ela estava lanando mo de todas as armas possveis para 
conseguir o que queria: casar-se com ele. E usar o prncipe como apoio 
para seu intento era sem dvida um grande triunfo!
O regente gostava de bancar o cupido. Caso se considerasse o autor da 
unio, era capaz de oferecer a festa de casamento em Carlton House.
O conde fechou os olhos tentando conter a raiva.
Podia ver claramente as grades da armadilha se fechando sobre ele. No 
tinha mais escapatria, agora era s uma questo de tempo! De pouco 
tempo.
Caroline seria sua esposa e os amantes dela beberiam de seu vinho, 
comeriam de sua comida e dormiriam em sua cama, rindo dele por o estarem
enganando!
- No! No posso admitir uma coisa dessas!  insuportvel! - disse
furioso, entre dentes.
E desejou de todo corao que a guerra no tivesse acabado e ele 
estivesse enfrentando os exrcitos de Napoleo.
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CAPTULO IV

Sir Alexander dirigiu-se para seu gabinete.
Vanda foi at a cocheira falar com os cavalarios antes que sassem para 
Gresbury. Sabia que eles iriam levar os cavalos devagar e calculou que se 
eles sassem  uma e meia chegariam na taberna por volta de cinco horas.
A viagem demorava bem mais pela estrada, mas eles seguiriam atravessando 
os campos.
Os cavalos estavam preparados, bem cuidados e dignos de serem admirados 
por um bom entendedor.
Vanda lembrou-se de como o conde cavalgava bem quando menino.
Embora fosse bem mais jovem do que ele, lembrava-se de como gostava de 
observ-lo e de como o fazia com admirao.
Os cocheiros cumprimentaram-na respeitosamente.
- Estamos de partida, srta. Vanda, e levamos uma carta do sr. Rushman 
para o conde.
- No vo perd-la, ento - Vanda sorriu.
- Sabe, ns ouvimos uma coisa estranha... - disse um deles.
Vanda virou-se para ele e ouviu com ateno.
- O jardineiro do White Lodge disse que hoje de manh viu sete homens a 
cavalo indo para o Bosque do Monge.
Vanda ficou gelada. Sabia muito bem quem eram eles.
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Lembrou-se, ento, -que quando os ouvira da primeira vez no percebera o 
som de cavalos, portanto isso queria dizer que deviam t-los roubado da 
cocheira da manso.
Havia mesmo muitas baias vazias, os cocheiros deviam ter ficado 
aterrorizados tais como os caseiros e por isso no disseram nada!
Alm do mais, os salteadores eram em maior nmero do que pensara!
Sete homens, todos armados, eram um grande perigo para um homem 
desprevenido!
O que faria o conde?
Percebeu que os cocheiros a fitavam, espantados com seu silncio, e 
tratou de dizer depressa:
- Quem seriam esses cavaleiros?
-  o que ns estamos nos perguntando - disse o mais velho.
- Enquanto vocs vo at Gresbury vou procurar descobrir se algum mais 
os viu - disse Vanda, fingindo despreocupao. - Mas acho que o 
jardineiro estava sonhando.
- Ele no  mentiroso nem costuma beber.
Dito isso, o cocheiro montou em um dos cavalos e segurou a rdea de outro 
com a mo esquerda.
- Vo devagar - Vanda recomendou.
- Sim senhora. O Jake vai ficar cuidando dos outros cavalos at a gente 
voltar.
Jake era o filho dele, e quase to experiente quanto o pai.
Vanda ficou contemplando-os at sumirem de vista.
E mais uma vez teve a certeza de que deveria avisar o conde para que ele 
tivesse tempo de pensar numa atitude. Mas se deixasse para avis-lo s 
quando j estivesse quase chegando, na manh seguinte, isso poderia 
coloc-lo em grande perigo.
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Os ladres podiam estar planejando captur-lo assim que chegasse em casa. 
Podiam at invadir a casa de surpresa. No havia ali ningum capaz de 
impedi-los.
Vanda, afinal, entrou em casa decidida sobre o que iria fazer.
Era uma atitude bastante ousada e se algum ficasse sabendo, provocaria 
um mexerico sem fim.
Mas, para ela, a nica coisa que importava era que o conde no corresse 
perigo.
Subiu para o quarto e separou algumas coisas de que precisaria para 
passar a noite, incluindo um vestido leve de musselina para usar no 
jantar. Colocou tudo numa sacola leve que podia ser presa na sela de 
Kingfisher. Depois, vestiu seu melhor traje de montaria, pegou a sacola, 
o chapu, e desceu.
Largou as coisas numa cadeira do hall e, devagar, escondendo o 
nervosismo, foi at o gabinete do pai.
Sir Alexander ergueu o olhar com certa impacincia. Detestava ser 
interrompido.
- Desculpe incomod-lo, papai, mas acabei de receber um recado da srta. 
Walters. Ela no est muito bem e acho que devo ir visit-la.
A srta. Walters era uma antiga governanta que dera aulas a Vanda por 
alguns anos at que se aposentara.
Morava numa aldeia a uns dois quilmetros de Gresbury.
O general sabia que a filha costumava visit-la de vez em quando.
- Ela no est bem? , ento melhor voc ir v-la, mas leve Jim junto.
Jim era um dos cocheiros que acabaram de partir. Sem dvida o pai 
esquecera sobre o emprstimo dos cavalos.
- vou tentar voltar antes que anoitea. Mas se ficar tarde vou passar a 
noite l.
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- No gosto de voc andando por a, assim, mas, se ela mandou cham-la,  
porque deve estar precisando da sua ajuda.
- Seria indelicado no ir, papai. - Despediu-se com um rpido beijo e 
acrescentou: - No trabalhe demais e no se esquea de tomar seu remdio.
- Eu no tenho nada! - o general reclamou.
Vanda saiu da sala, sabendo que assim que o pai voltasse a se ocupar do 
livro esqueceria todas as preocupaes com ela.
Jake colocou a sela em Kingfisher e Vanda partiu.
Fez um pequeno desvio para no encontrar os dois cocheiros que tinham 
partido havia meia hora.
Sabia que eles reprovariam sua atitude e no queria contar a mais ningum 
sobre os ladres.
Conhecia bem a regio e sabia como atravessar aqueles campos. J fora a 
Gresbury centenas de vezes com seu pai.
Alis, era um vilarejo bastante pitoresco e simptico, alm de possuir 
uma das melhores estalagens do condado. Por isso no era de admirar que o 
conde tivesse resolvido pernoitar ali antes da ltima etapa de sua 
viagem.
O dia estava quente, ensolarado, e Kingfisher estava gostando do passeio 
tanto quanto Vanda.
Ela o deixou galopar no incio e depois o fez diminuir o passo para que 
nenhum dos dois chegasse a Gresbury muito cansado.
Atravessaram a floresta Savernake e Vanda no pde deixar de pensar que 
os salteadores poderiam estar escondidos ali, mas logo concluiu que eles 
no sairiam das redondezas da manso enquanto no conseguissem um bom 
saque.
Lembrou novamente dos objetos de arte, das pratarias e enfeites de ouro 
da manso e ficou horrorizada com a
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ideia de que pudessem ser levados pelos ladres.
J passava das cinco horas quando entrou no ptio da estalagem.
Um cavalario foi a seu encontro apressado, e Vanda foi logo perguntando:
- J chegaram os cocheiros trazendo quatro cavalos do general sir 
Alexander Charlton?
- No senhora.
- Devem estar para chegar, ento - Vanda disse, desmontando. - Quando 
chegarem, cuidaro deste cavalo tambm.
Inspecionou o estbulo e escolheu as cinco baias que achou melhores, 
depois mandou que providenciassem palha fresca antes de entrar na 
estalagem.
O proprietrio, um homem grande e corpulento, cumprimentou-a 
respeitosamente.
- bom dia, senhorita, seja bem-vinda ao Dog and Duck.
- Obrigada - Vanda retrucou. - Eu estava explicando a seu cavalario que 
esto para chegar dois cocheiros trazendo quatro cavalos pertencentes a 
meu pai, o general sir Alexander Charlton.
O estalajadeiro pareceu ficar bem impressionado e Vanda prosseguiu:
- Dois dos cavalos so para o uso do conde de Wynstock, que me parece vai 
passar a noite aqui.
- Vai sim, senhorita, e  uma honra para ns ter o conde como hspede!
- Acontece que tenho um recado muito importante para o conde e preciso 
esper-lo aqui. Eu lhe agradeceria muito se pudesse ficar em sua sala 
particular.
O estalajadeiro concordou imediatamente. Conduziu Vanda por um corredor 
atrs da sala de refeies
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at uma pequena saleta confortavelmente mobiliada onde o fogo
crepitava na lareira.
Perto da janela havia uma mesa posta para o jantar.
Vanda agradeceu-lhe e perguntou onde poderia lavar-se para tirar a poeira
da estrada.
Uma camareira conduziu-a ao andar de cima onde ela ajeitou os cabelos e o 
traje.
Desceu de novo, com o chapu na mo, desejando que o conde no demorasse a
chegar para que pudesse ter tempo de voltar antes que escurecesse
completamente.
Caso contrrio, teria de passar a noite com a srta. Wal ters, conforme 
dissera ao pai. E isso no seria um programa dos mais agradveis, j que
a velha governanta estava meio surda e ficava difcil conversar com ela.
Era preciso repetir vrias vezes a mesma frase.
Porm, isso tudo era irrelevante diante da importncia do fato de o conde 
saber da ameaa que o esperava.
O conde acordou e viu que j eram sete horas, mas ningum o chamara como
tinha ordenado.
Pulou fora da cama e tocou a campainha, furioso.
Era sempre a mesma coisa: quando seu criado de quarto no estava, suas 
ordens no eram cumpridas  risca.
Mas ento lembrou-se de que Croker, que tinha sido seu ordenana, ainda 
se comportava como um soldado.
Os novos criados, que tinham acabado de ser contratados, no estavam 
familiarizados com seus hbitos.
Um lacaio veio correndo atender o chamado.
O conde perguntou, bravo, por que no fora acordado s seis horas.
- Eu espiei pela porta, milorde, mas o senhor estava dormindo to sereno 
que no quis perturb-lo.
Pelo modo como falou, e o brilho em seus olhos, o conde
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percebeu que ele sabia o que acontecera durante a noite. E todos os 
outros criados da casa deveriam saber tambm.
O conde crispou os lbios, maldizendo Caroline mentalmente.
Controlando a exploso de mau humor, disse apenas:
- Da prxima vez que eu disser seis horas, proceda como ordenei!
- Sim, milorde.
O lacaio ajudou-o a vestir-se.
Mas quando Neil desceu teve de se sujeitar a mais um atraso, pois seu 
desjejum ainda no estava pronto.
Quando terminou a refeio e seu faetonte chegou para apanh-lo j 
passava das oito horas.
O conde sabia que para chegar a Gresbury no fim da tarde teria de correr 
muito mais do que pretendia.
No que Wyn ficasse to distante de Londres, mas  que as estradas eram 
muito ruins. Pelo menos era do que se lembrava.
Era primavera, por isso a estrada estava ladeada de arbustos e rvores 
floridas.
O conde, porm, concentrava sua ateno nos cavalos. Era excelente 
cavaleiro e no queria for-los nem explos a riscos desnecessrios, mas 
os cavalos, para sua satisfao, eram timos e bem treinados.
Isso era realmente o que lhe tinham garantido quando os comprara em 
Tattersall's, e felizmente os animais correspondiam s expectativas e 
valiam o alto preo que Pagara.
O conde teve a delicadeza de parar na estalagem onde pretendia passar a 
noite. Cancelou a reserva mas fez questo de pagar.
Mesmo na Frana, sempre fizera questo de pagar por tudo que seus 
soldados precisavam. Isto, alis, deixava os
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franceses atnitos.
Jamais esperavam receber algum dinheiro de seus inimigos pelos porcos, 
galinhas e patos que consumiam.
- O senhor  um verdadeiro cavalheiro, milorde, disse o estalajadeiro, 
recebendo as moedas de ouro.
O conde sorriu, e despedindo-se prosseguiu viagem.
No caminho, ainda teve de seguir um longo trecho atrs de uma enorme 
carroa que no tinha como ultrapassar. Isso diminuiu o ritmo de sua 
viagem e deixou-o mais irritado.
Por isso estava cansado e com muita fome quando parou no Dog and Duck.
Dois cocheiros estavam a sua espera e o estalajadeiro saiu para 
cumpriment-lo.
- Fez boa viagem, milorde?
- No foi to ruim, mas essas estradas esto terrveis!  preciso fazer 
alguma coisa!
- Concordo com o senhor, todo viajante se queixa, mas ns no podemos 
fazer nada!
O conde decidiu que faria um veemente protesto ao prefeito. Afinal, no 
havia por que negligenciar desta maneira as estradas.
Tinha certeza de que muitas delas deviam ficar intransitveis durante o 
inverno com a neve ou as chuvas torrenciais.
Naquele momento, porm, estava mais interessado em descansar e comer.
O estalajadeiro conduziu-o pessoalmente at um quarto que era o maior da 
estalagem e onde j havia uma tina para banho preparada diante da 
lareira.
- J mandei trazerem a gua quente, milorde - disse o dono da taberna, 
respeitosamente.
Virou-se para sair do quarto, mas deteve-se lembrando
62
de algo.
- H uma lady esperando pelo senhor l embaixo. Chegou h vrias horas.
O conde fitou-o de olhos arregalados.
Era impossvel que Caroline tivesse chegado l antes dele!
- Uma lady? - perguntou incrdulo.
-  miss Charlton, milorde. A filha do general sir Alexander Charlton, 
que lhe mandou alguns cavalos.
O conde respirou aliviado.
- Ah, sei! Pretendo me desculpar com ela por ter me atrasado tanto. 
Talvez me d a honra de jantar comigo!
- Eu direi isso a ela, milorde.
Dito isso, o estalajadeiro saiu do quarto.
O conde ficou contrariado por ter de jantar em companhia de algum, pois 
era a ltima coisa que desejava.
Ainda mais aquela menina, que j devia estar uma mocinha,  verdade, mas 
na certa era daquele tipo cansativo que adora equitao e pensa entender 
mais que os homens sobre cavalos. 
Contudo, se o general estava lhe emprestando os cavalos, no podia ser
indelicado.
Pela primeira vez ocorreu-lhe que os cavalos de propriedade de seu 
falecido pai deviam estar velhos demais, por isso Rushman recorrera ao 
vizinho.
Enquanto tomava banho, ps-se a pensar no general que fora amigo ntimo 
de seu pai.
Devia estar bastante idoso, agora.
Lembrou-se de que sua esposa era uma mulher muito bonita.
Ento seus pensamentos voltaram-se para Caroline. Passara a viagem toda 
pensando no que fazer para livrar-se dela.
Aborrecia-o o fato de ela estar estragando sua volta para
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casa, coisa com que tanto sonhara.
Sentia-se quase como um menininho que tivesse sido privado de um presente 
muito esperado.
Neste momento, odiou-a com todas as foras.
Alis, antes mesmo de sair de Paris j descobrira que Caroline era tudo o 
que ele mais detestava numa mulher.
Mas, por outro lado, no tinha foras para resistir ao desejo que ela 
despertava nele.
- Eu fui um tolo! - admoestou-se.
Depois de vestir-se, olhou-se rapidamente no espelho e desceu. O 
estalajadeiro esperava-o ao p da escada.
- O jantar estar pronto em poucos minutos, milorde
- anunciou.
- Confesso que estou com muita fome - o conde retrucou.
O estalajadeiro conduziu-o pelo corredor, com pesadas vigas de carvalho 
no teto, at a saleta. Vanda ergueu-se vendo-os entrar. Quando Neil a 
fitou, ficou atnita.
Ao receber o convite do conde para jantar em sua companhia, Vanda 
alegrou-se por ter levado um vestido de noite.
Era um modelo bastante simples, com cintura alta, que realava a curva 
dos seios, e dois babados, que ressaltavam a sua silhueta esguia e 
perfeita.
No levara jias nem ornamentos de qualquer espcie.
O conde, entretanto, contemplando-a achou que jamais havia visto cabelos 
de cor to diferente e bela.
Eram dourados. A cor do amanhecer, quando os primeiros raios de luz 
aparecem no cu, e tinham um certo qu de prateado como se um resto de 
luar ainda os iluminasse.
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No rosto delicado de Vanda, os olhos predominavam e eram verdes como os
primeiros brotos de folhas que surgem na primavera, e luminosos como se
uma luz dourada os banhasse.
O conde estava esperando encontrar uma garota sem graa e beleza e, em 
vez disso, via-se face a face com uma jovem encantadora.
Ento, afinal, sorriu:
- Agora me lembro! Voc  Vanda!
- Pensei que tivesse me esquecido...
- Eu me lembrava de voc como uma menininha bonita que gostava de montar 
cavalos fogosos demais para sua idade e nadava no lago com um peixe!
Vanda riu.
- E eu sempre lembrei de voc fazendo o cavalo saltar e papai dizendo com 
reprovao que o obstculo era alto demais.
Foi a vez de o conde rir.
- Meu pai tambm dizia isso, mas eu continuava tentando fazer possvel o 
impossvel!
Estavam ambos rindo quando o estalajadeiro chegou com uma garrafa de 
champanhe. Vanda aceitou uma taa e ergueu a mo para um brinde.
- A seu retorno! Esperamos por voc h muito tempo!
- Eu tambm esperei muito! Pensei que nunca mais fosse chegar este 
momento! - disse o conde em tom solene.
Sentaram-se  mesa. A comida era simples, mas muito bem-feita.
O conde, que estava com fome, deliciava-se a cada garfada.
Fez algumas perguntas e conversaram enquanto comiam.
Vanda contou-lhe como a casa estava bem cuidada, como
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Buxton e a sra. Medway tinham voltado.
- Pode no estar em to perfeito estado quanto no tempo de seu pai, mas 
esto todos fazendo o mximo para conseguir um bom resultado no pouco
tempo de que dispunham depois do aviso de sua chegada.
O conde percebeu um certo tom de reprovao e disse:
- Sei que no os avisei com muita antecedncia e isso deve ter causado
certas inconvenincias, mas decidi voltar de repente. Por outro lado, eu
pretendia ter sado de Lon dres antes, s que um imprevisto me deteve e 
acabei sain do hoje de manh.
- Ento viajou o dia inteiro! O conde fez que sim.
- Voc teve sorte. Nos meses de inverno, s vezes leva se trs dias para 
se chegar aqui.
O assunto da conversa girou, ento, em torno do esta do das estradas.
O ltimo prato foi servido e o conde aceitou um clice de conhaque.
Depois, os criados se retiraram e eles ficaram a ss.
Saram da mesa e sentaram-se em duas poltronas dian te da lareira, onde 
grossas achas de lenha queimavam ema nando um calor aconchegante.
O tempo estava passando e Vanda lembrou-se de que precisava falar logo 
por que viera; seno, quando chegasse  casa da srta. Walters ela j
estaria dormindo.
- Voc parece preocupada - disse o conde.
- Estava pensando que preciso falar logo, seno vai ficar tarde e quando 
eu chegar na casa da minha antiga go vernanta, que fica no outro 
vilarejo, ela no vai me ouvir bater. Ela no sabe que estou indo para 
l.
- Quer dizer que no est hospedada aqui?
- Claro que no! S vim v-lo porque era urgente.
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Se voc tivesse chegado mais cedo, eu pretendia voltar para casa antes que
escurecesse. Neil contemplou-a, antes de perguntar:
- Por que voc precisava me ver? Pensei que tivesse trazido os cavalos de 
seu pai.
- Eles no vieram comigo. O conde largou o clice.
- Ento, o que h para me dizer de to urgente? Era a primeira vez que 
uma mulher o esperava no apenas pelo prazer de sua companhia.
- Esto acontecendo coisas muito graves na manso Wyn - Vanda disse num 
tom mais baixo.
O conde fitou-a com ateno e esperou que prosseguisse.
- Sei que vai aborrec-lo e estragar sua chegada, por outro lado eu 
preciso preveni-lo.
- Prevenir-me?
- , voc pode estar em grande perigo! Neil ficou perplexo.
- Por qu? Quem me ameaa? Vanda respirou fundo.
- J faz alguns dias que um bando de ladres de estrada invadiu a ala 
oeste da manso.
O conde empertigou-se na poltrona e fitou-a com ar incrdulo.
- Voc disse ladres de estrada? Na ala oeste? No posso acreditar!
-  verdade. Eles ameaaram e aterrorizaram os Taylor, seus caseiros, e 
acho que ameaaram tambm os cocheiros.
- E por que ningum tomou uma atitude? Sem dvida Rushman...
- O sr. Rushman no sabe disso - interrompeu-o Vanda. - Nem meu pai. Na 
verdade, sou a nica pessoa, alm
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desses criados que mencionei, que sabe da invaso.
- Mas  incrvel que tenham entrado na casa!
- Esta parte da casa estava vazia... Eu tenho medo de que eles roubem os 
objetos preciosos que existem l.
- E por que voc acha que ainda no roubaram? Vanda hesitou, depois achou 
que o conde devia saber
toda a verdade.
- Eu acho, embora no tenha fundamento para isso, que eles preferem 
dinheiro e pretendem extorqui-lo de voc, se chegar l agora!
- Se eu chegar l? Est insinuando realmente que no devo voltar?
- Acho que pode ser perigoso, a no ser que leve proteo militar.
- Nunca ouvi tolice maior! - Neil disse com desdm.
- Eu lhe garanto, Vanda, que no tenho medo de ladres de estrada!
- Eles formam um bando de pelo menos sete salteadores. E, a julgar pelo 
pavor que despertaram nos Taylor, acho que devem ser homens muito 
perigosos!
- Francamente, com essa eu no contava! Voc acha mesmo que eles podem me 
ferir?
- Papai me contou, h alguns anos, como um ladro de estrada chamado 
Watson extorquiu dinheiro de um mercador de diamantes, que acabou 
morrendo em consequncia das torturas que sofreu.
- Tinha me esquecido dessa histria... Mas isso ocorreu no sculo 
passado. E, afinal, ladres no so sequestradores!
- Ento voc se esqueceu tambm do capito James Campbell e de sir John
Johnson.
- O que eles fizeram?
- Eles raptaram uma menina de treze anos herdeira de
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grande fortuna e sir John Johnson forou-a a casar-se com ele.
- Santo Deus! E ela escapou disso?
- Alguns homens foram presos e sir John foi enforcado, mas o capito 
Campbell escapou, fugindo para o estrangeiro.
O conde no falou nada e Vanda prosseguiu:
- Tenho certeza de que hoje em dia existem tantos ladres e assaltantes 
como antigamente, principalmente por causa da desmobilizao dos 
exrcitos, que deixa muitos homens sem emprego e sem dinheiro.
O conde sabia que isso era verdade, ele prprio constatara o fato. Fez-se 
um silncio prolongado at que ele perguntou:
- O que voc sugere que eu faa? Vanda sorriu.
- Eu vim apenas preveni-lo, no tomar decises. Afinal, o soldado  voc.
- Na guerra, pelo menos, eu sabia onde estava o inimigo.
- J lhe disse... no momento eles esto no Bosque do Monge.
- E acha que eles vo ficar l?
- No posso garantir, mas acho pouco provvel, j que devem saber que 
voc est voltando para casa.
- Creio que  uma deduo lgica - concordou o conde. - Mas o que posso 
fazer?
- Sugiro que v ao quartel e pea ao oficial encarregado para mandar um 
peloto a manso Wyn.
O conde refletiu por alguns instantes depois disse:
- Francamente, detesto admitir que estou sem sada. No h homens 
robustos e capazes na propriedade?
- H poucos e a maioria deles, como no esteve na
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guerra, no sabe atirar. E no acho ps e enxadas eficientes contra
balas!
O conde bateu no brao da cadeira.
-  intolervel! - exclamou. - A situao est to m quanto h cinquenta 
anos! Lembro da minha av contando que as ruas eram to perigosas, quando 
ela era criana, que quando saa com a me precisavam ser escoltadas por 
criados armados para defend-las de assaltantes!
Vanda acrescentou ainda que os ladres s roubaram os cavalos do conde 
por no acharem outros melhores que os dele.
- Voc tem razo - o conde concordou, relutante. Mas confesso que  
humilhante admitir que estou impossibilitado de me defender e proteger 
minha propriedade e que sou obrigado a pedir ajuda militar.
- Seria muito mais humilhante ser amarrado e forado a entregar uma 
enorme quantia de dinheiro!
- Isso  verdade. Pois bem, no irei diretamente para casa como 
pretendia. vou ao quartel.
Vanda cruzou as mos, satisfeita.
- Que bom que voc decidiu assim! Bem, agora preciso ir embora!
Ela se ergueu, mas o conde a deteve.
- No seja estouvada, Vanda! Olhe o adiantado das horas!
Havia um relgio sobre a lareira e Vanda constatou, horrorizada, que 
passava das onze horas.
Ficou paralisada, sem querer acreditar e no sabendo o que fazer.
- Fique aqui. Tenho certeza de que voc no tem medo de mim.
- No,  claro que no! - Vanda retrucou. - Mas me preocupo com minha 
reputao e... a sua,  claro!
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O conde riu.
- Ningum se admiraria de ouvir que me viram com uma linda lady. Voc  
de fato bonita.
Ela enrubesceu e ele a achou encantadora por isso.
- Obrigada - Vanda disse. -  o primeiro elogio que recebo de... algum.
- Mas ser que esto todos cegos em Little Stock? Ela o fitou com seus 
olhos luminosos.
- No, milorde, esto todos velhos!
- No tinha pensado nisso. Mas  claro, j que todos os jovens como eu 
foram para a guerra!
- Foram todos... e alguns jamais voltaro.
- Pois bem, agora voc no ouvir mais apenas os meus elogios. Assim que 
eu puser a casa em ordem vou reunir os amigos de Londres e voc ouvir 
outros at mais eloquentes.
-  muita gentileza sua, mas no momento estou mais preocupada com os 
salteadores, milorde!
- Se voc me chamar de "milorde" mais uma vez, vou lhe dar umas palmadas! 
Afinal, fomos criados juntos e meu nome, caso tenha esquecido,  Neil.
- Sei muito bem, mas no achei correto me valer de uma amizade de 
infncia para tomar liberdades.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Vanda acrescentou:
- Amizade no  bem a palavra. Adorao de infncia seria o termo mais 
correto. Para mim, voc era o heri de todas as histrias que eu lia, 
alm de ser a prpria encarnao de um deus grego!
O conde riu com gosto.
- E eu s fui me interessar por meninas quando cheguei  idade com que 
voc est agora! Antes, achava que elas s atrapalhavam.
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Ao dizer isso no pde deixar de pensar em Caroline que agora o 
atrapalhava e aborrecia. Era muito bonita, sem dvida, mas naquele 
momento achou, at, que Vanda era mais bonita ainda, que possua uma 
beleza rara e diferente.
- Agora seja sensata, Vanda. Pea um quarto para passar a noite aqui. 
Voc vai precisar ir comigo at o quartel para explicar o que exatamente 
est acontecendo na manso Wyn. Eles podem no acreditar em mim.
- Acho isso impossvel! - ela sorriu. - Todos no condado sabem o quanto 
voc foi importante para o duque e da condecorao que ganhou aps 
Waterloo.
- Ah, isso! - Neil deu de ombros.
- , isso, sim. Voc vai ver que at em tempos de paz isso conta muito!
- Ento, com a autoridade que adquiri durante a guerra, ordeno que voc, 
Vanda, cumpra minhas ordens!
Riu com ar brincalho e acrescentou:
- Eu explicarei ao estalajadeiro que, por eu ter me atrasado tanto, voc 
no pde seguir caminho para onde estava indo. Direi que providencie um 
dos melhores quartos e uma camareira para lhe fazer companhia.
- Acho que no tenho como opor objees...
- O importante  que ningum saiba dos nossos propsitos. Por isso 
partiremos amanh bem cedo e iremos direto ao quartel, conforme voc 
sugeriu.
Pensou um pouco e acrescentou:
- Acho que no devemos chegar juntos na aldeia. Direi aos cocheiros que 
nos esperem num determinado lugar para que acompanhem voc at sua casa.
Vanda olhou para ele com aprovao.
- Agora voc assumiu o comando! Era exatamente isso que eu queria que 
fizesse!
- Ento, j que estamos ambos cansados, vou providenciar
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sua hospedagem logo para que possamos ir dormir.  com isso saiu
da sala.
Vanda sentiu que lhe tiravam um peso dos ombros, e rezava em
agradecimento quando o conde voltou  saleta.
- J est tudo arranjado, agora no precisa mais se preocupar.
Ele ficou contemplando-a de um modo que a deixou intrigada.
- No sei como posso agradecer-lhe por ter tido tanto trabalho comigo!
Neil sabia muito bem que resposta lhe daria outro tipo de mulher, mas 
Vanda retrucou apenas:
- Cruze os dedos! Ainda temos muito a fazer antes que voc possa se 
considerar realmente a salvo. vou continuar rezando para que voc seja 
iluminado para enfrentar o inimigo.
O conde segurou a mo dela entre as suas.
- Obrigado, Vanda. vou precisar mesmo das suas oraes.
E tocou de leve com os lbios a pele delicada daquela mo, num gesto de 
gentileza.
Porm, no pde deixar de notar o olhar de surpresa nem o ligeiro tremor 
que percorreu o corpo de Vanda.

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CAPTULO V

O conde desceu para o caf da manh bem cedo e encontrou Vanda j na
saleta.
Achou-a encantadora em seu traje de montaria com um chapu que tinha uma 
fita de gaze com as pontas caindo na parte de trs.
- bom dia, Vanda! - disse sorrindo. - Agora estou vendo que voc  mesmo 
uma moa do campo!
- Porque me levantei to cedo?  que eu gosto de cavalgar no frescor da 
manh.
- Eu tambm. Pena que hoje tenhamos outro assunto a tratar.
Enquanto o desjejum comeava a ser servido, o conde disse a Vanda:
- Eu quero conversar com voc no caminho, por isso disse ao meu cocheiro 
para levar o seu cavalo.
Vanda fez meno de protestar, mas ele acrescentou depressa:
- Ele  um cavalheiro muito experiente. Eu lhe asseguro que pode confiar 
nele.
- Eu sei que sim. E os meus cocheiros j partiram levando os seus 
cavalos.
Vanda havia recomendado a eles que tomassem cuidado com os cavalos do 
conde e combinaram de se encontrar num cruzamento da estrada que ficava a 
uns dois quilmetros da aldeia.
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Enquanto continuavam com sua refeio matinal o conde perguntou:
- Voc dormiu bem?
- Muito bem, obrigada. Antes eu estava preocupada com voc caminhando 
para o perigo sem saber. Mas, agora que voc vai buscar reforo no 
quartel, no tenho mais medo.
- Eu acho que estamos exagerando a situao! No posso realmente 
acreditar que ladres de estrada, por maior que seja o nmero deles, 
sejam piores e mais intimidantes do que Napoleo Bonaparte!
Vanda riu, depois disse:
- Um  problema nacional, o outro  pessoal.
O conde gostou da resposta rpida e espirituosa e falou:
- Depois do que voc me disse ontem  noite sobre a terrvel falta de 
galanteios que grassa nesta parte do pas, permita-me que lhe diga que 
voc est encantadora e muito elegante!
- Assim at parece que pedi galanteio... Mas devo confessar que  
bastante agradvel ouvi-los.
Foi a vez de o conde rir.
Vanda no podia deixar de sentir que era agradvel e estimulante estar na 
companhia dele.
Quando terminaram o caf, o conde pagou o estalajadeiro e deu-lhe uma 
gorjeta to generosa que ele se curvou quase at o cho para agradecer.
L fora o faetonte do conde os esperava pronto para partir.
O cocheiro entregou-lhe as rdeas, depois montou em Kingfisher e todos 
partiram.
Vanda sabia bem o caminho para o quartel, coisa que o conde, estando fora 
h tanto tempo, no se recordava muito bem.
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No podiam ir a grande velocidade, pois a estrada era sinuosa, s vezes
to estreita que, se encontrassem outro veculo, um dos dois teria de
voltar.
Para deleite de Vanda, o conde estava disposto a falar sobre as batalhas 
na Frana e ela no se cansava de fazer perguntas.
Deslumbrada, ouviu-o contar como o duque de Wellington fora brilhante.
- Ningum mais teria conseguido derrotar Napoleo Bonaparte - Nil disse 
com nfase.
-  o que todos ns achamos.
- Ele  o heri de toda a Europa - o conde prosseguiu. - Quando ele 
voltar para casa, no ano que vem, espero que o pas demonstre sua 
admirao.
- Eu tambmm espero. Ele  realmente um grande homem!
- E eu sou um homem de sorte por ter tido o privilgio de conviver 
diretamente com ele durante um ano todo.
Vanda gostou do jeito dele falar, to despretensioso, sem se vangloriar 
de seus prprios feitos.
Por fim chegaram ao quartel e Vanda at lamentou, pois talvez jamais 
tivesse outra oportunidade de conversar to  vontade com o conde.
Pararam diante dos portes. O conde se identificou e informou ao 
sentinela que desejava falar com o oficial em comando:
-  o major Lawson, sir - retrucou o sentinela e indicou-lhe o caminho.
O conde ajudou Vanda a descer do faetonte e entraram por uma imponente 
porta guardada por duas sentinelas que lhes fizeram continncia.
O major Lawson era um homem de meia-idade, elegante em sua farda.
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Cumprimentou o conde entusiasticamente.
-  uma grande honra, milorde! Eu no sabia que estava de volta  
Inglaterra!
- Acabei de chegar - o conde respondeu.
- Pois estamos muito contentes de v-lo aqui.
- Obrigado. Permita-me que lhe apresente a srta. Charlton, que, como deve 
saber,  filha do general sir Alexander Charlton.
- Ainda no tinha tido o prazer de conhec-la - o major disse, apertando 
a mo de Vanda. - Conheo bem seu pai e o admiro muito.
- Obrigada - Vanda respondeu.
- Viemos tratar de um assunto muito importante com o senhor - Neil disse 
sem subterfgios -, e agradeceria se pudssemos falar-lhe em particular.
O major demonstrou surpresa, mas concordou de
imediato.
Virou-se para o tenente que estava em uma outra escrivaninha na sala e 
disse:
- No deixe que nos interrompam.
- Sim senhor, sir - respondeu o tenente e saiu da sala
fechando a porta. O conde e Vanda sentaram-se em duas cadeiras diante
da mesa do major.
- Ento, o que posso fazer pelo senhor, milorde?
- Acho que a srta. Charlton pode explicar-lhe melhor do que eu - o conde 
retrucou, olhando para ela.
- Quando soube que o conde estava a caminho da manso Wyn, fui correndo 
avis-lo do perigo... - Vanda comeou.
- Perigo? - admirou-se o major.
- , sete ladres de estrada invadiram a ala oeste da propriedade e esto 
aterrorizando os caseiros e os cocheiros.
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Por instantes, o major fitou-a, atnito, antes de exclamar;
- Ento  l que foi se esconder o bando de Baker!
- Bando de Baker? - o conde repetiu. - Quer dizer que o senhor estava 
procurando por eles?
- H dois meses que os persigo - o major respondeu.
- Recebemos um comunicado do quartel de Warwickshire de que eles estavam 
a caminho daqui e achei que estavam escondidos na floresta Savernake.
- J tentou captur-los?
- Estava  procura de pistas. Mas eles so muito perigosos, uma 
verdadeira ameaa para a regio! Na verdade, a lista dos crimes que eles 
cometeram  a pior que j vi para ladres de estrada.
Vanda no conteve uma pequena exclamao de horror. O conde curvou-se 
para a frente para dizer:
- Fale-me sobre eles.
- O lder  um homem chamado Baker, que j foi confeiteiro. Ele tinha uma 
confeitaria, em Mayfair, frequentada pela aristocracia que o levou  
falncia.
O conde pareceu admirado e o major explicou:
- Seus clientes fizeram contas enormes e, quando no puderam pag-las, 
ele faliu. - O major fez uma pausa e prosseguiu: - Como pode imaginar, 
isso o deixou revoltado contra a sociedade e ele jurou se vingar.
- Ento resolveu ser salteador de estrada! - exclamou o conde.
- Exatamente! Ele e seu bando no s assassinaram vrias pessoas como 
ainda as torturaram antes!
- Ah, no! - Vanda no se conteve.
- Infelizmente  verdade, senhorita - o major disse dirigindo-se a ela. - 
Baker prefere dinheiro vivo a jias ou objetos de valor e, em vrios 
casos, depois de mandar bilhetes exigindo resgate aos parentes da vtima, 
se o dinheiro
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demorava a chegar ele enviava um dedo ou uma orelha da vtima para
apressar o pagamento!
Vanda apertou as mos com fora e, contendo um grito de horror, olhou 
para o conde longamente.
- Voc tinha razo em me fazer vir at aqui, Vanda!
- ele disse.
- Foi ideia da srta. Charlton? - perguntou o major.
- Pois fez muito bem em escut-la! Eu lhe garanto, milorde, que Baker no 
se trata de um desses "Fidalgos da Estrada", como se l nos livros, mas 
sim de um monstro que precisa ser eliminado da sociedade!
- Posso entender - o conde disse.
- Baker e seu bando tm ainda o costume horrvel de cegar prisioneiros 
para que no possam identific-los.
Percebendo que esses relatos estavam perturbando Vanda, o conde falou:
- O que o senhor disse j  o bastante, major, para me garantir que fiz 
bem em vir buscar proteo. Agora  melhor a srta. Charlton lhe dizer 
onde est o bando no momento.
O major tomou pena e papel e Vanda disse:
- Agora eles saram da ala oeste da manso e foram vistos, por um 
jardineiro, que contou ao cocheiro do meu pai, indo para o Bosque do 
Monge.
- Faz muito tempo que no vou  manso Wyn - o major disse. - Se no me 
engano, o Bosque do Monge fica um pouco ao sul da casa.
- Isso mesmo - Vanda confirmou. -  um bosque grande, mas tem fama de 
mal-assombrado e ningum costuma ir l. Por isso eles devem ter escolhido 
esse local.
O major pareceu admirado e ela explicou:
- O nome de Bosque do Monge foi dado por causa de um religioso que l se 
isolou do mundo para rezar e
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para cuidar dos animais quando se feriam.
- Agora que voc mencionou - o major disse -, parece que me recordo de
ter ouvido essa histria.
- Bem no meio do bosque esto as runas de uma ca pela que o monge 
construiu e onde rezava missas no s para viajantes que chegavam at 
ali, mas tambm para curar os animais. Acho que  a que o bando se 
escondeu.
- Ento  essa a histria! - o major exclamou. - Pois, quanto antes 
expulsarmos esses bandidos desse lugar sagrado, melhor!
- Concordo com o senhor - Vanda retrucou. - Sempre gostei de cavalgar 
nesse bosque porque acho que ainda perdura nele uma certa aura de 
beatitude e misticismo, apesar de o monge j ter morrido h mais de 
duzentos anos.
Falou com tocante sinceridade e o conde sorriu para ela como se a 
entendesse.
- Agora, o que eu sugiro  que o senhor conde passe a noite aqui.
- Passar a noite aqui? - Neil perguntou espantado.
- Infelizmente  preciso - explicou o major. - No momento, praticamente 
todos os soldados do quartel esto fora em exerccios de manobras. Alguns 
voltaro s cinco horas hoje, mas os outros s amanh cedo.
O conde comprimiu os lbios, mas Vanda, sabendo que no havia outra coisa 
a fazer, disse com calma:
- Voc deve ficar. Seria loucura voltar para casa agora que sabemos que 
tipo de homens eles so.
- Concordo com a senhorita. Eu lhe asseguro, milorde, que lhe 
proporcionaremos o mximo de conforto possvel. Minha esposa e eu nos 
sentiremos honrados de hosped-lo em nossa casa, que espero possa ser 
melhor do que o alojamento do quartel!
Deu um sorriso antes de acrescentar:
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- Embora o senhor esteja bastante habituado a alojamentos.
- Sem dvida! - o conde retrucou. -  que estava to ansioso para chegar 
em casa!
- Certamente que sim - o major retrucou. - Mas acho que j deixei bem 
claro o quanto seria perigoso chegar l sozinho agora. Acho que a srta. 
Charlton est certa ao supor que o bando de Baker est a sua espera.
- Est bem - o conde concordou, relutante. - Farei o que o senhor diz.
- A sua estada aqui nos possibilitar elaborar o melhor plano de ataque, 
milorde. Na minha opinio, devemos cercar o bosque por todos os lados 
para que no consigam fugir.
- Se os pegarmos de surpresa, talvez possamos evitar derramamento de 
sangue - Neil concluiu.
-  o que espero, milorde, e j que o senhor  bem mais experiente do que 
eu em batalhas eu me curvarei a suas decises neste sentido.
- Obrigado.
Fez-se uma breve pausa, ento Vanda falou:
- Eu vou voltar para casa e dizer a todos que o conde atrasou a viagem e 
ainda est em Londres. As nicas pessoas que sabem que ele passou a noite 
no Dog and Duck so os cocheiros do meu pai, e eles so de absoluta 
confiana.
- Se fizer isso ajudar bastante, senhorita, e nos dar a chance de pegar 
esses indivduos de surpresa.
Vanda ergueu-se.
- Meu cavalo est a fora e vou partir imediatamente. Antes de sair 
hesitou um pouco, depois disse ao conde:
-  melhor colocar seus cavalos na cocheira de papai, onde ningum os 
ver. Se eles foram levados para a manso,
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seus serviais vo descobrir que voc est por perto e a notcia
pode chegar at os bandidos...
-  mais sensato. Voc pensa em tudo - Neil concordou.
Vanda estendeu a mo ao major.
- At logo, major. vou rezar para que esse horror acabe logo e que o 
conde possa desfrutar em paz sua volta ao lar.
- Eu lhe prometo que meus homens faro o melhor possvel, srta. Charlton 
- ele respondeu. - Espero ver seu pai brevemente.
Vanda sorriu-lhe. Ento o conde falou:
- vou acompanhar a srta. Charlton at l fora e j volto para discutirmos 
detalhes do nosso plano, major.
O major inclinou a cabea assentindo e sentou-se de novo.
O conde acompanhou Vanda at onde estava Kingfisher.
- Pelo amor de Deus, Vanda - disse em voz baixa -, tome cuidado e no se 
arrisque.
- Fique tranquilo.
Ele a ergueu e colocou na sela, ajeitando depois sua saia. Ento, olhou 
para ela e seus olhares se encontraram.
- Nem preciso dizer o quanto voc foi maravilhosa!
- S o que importa  que voc esteja a salvo - Vanda retrucou.
Ficaram se olhando por um longo instante sem conseguir desviar os olhos.
Depois, com certo esforo, Vanda puxou as rdeas e virou Kingfischer na 
direo dos portes.
Ao se afastar, sentiu que o conde a estava contemplando, mas no olhou 
para trs.
Comeou a rezar para que o plano deles desse certo e que o conde no
corresse mais perigo.
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Quando chegou  encruzilhada combinada, os cocheiros estavam a sua espera
e ficaram contentes ao v-la.
- Que cavalos magnficos, srta. Vanda! - disse um deles referindo-se aos 
cavalos do conde. - Tomara que o patro compre alguns como esses.
- , ns vamos justamente mostr-los a papai. Eles vo para nossa 
cocheira e no para a de Wyn Hall.
Os cocheiros olharam-na admirados, mas no disseram nada e logo se 
puseram a caminho da aldeia.
Ento, Vanda contou-lhes sobre os bandidos no bosque e disse que o conde 
estava em grande perigo.
- Que notcia horrvel, srta. Vanda! - os cavalarios exclamaram.
- Eu sei, e  por isso que precisamos fazer nossa parte mantendo segredo
at que os bandidos sejam capturados.
Disse-lhes, ento, que deviam fazer todos da aldeia pensar que o conde
ainda estava em Londres, que no o tinham encontrado em Gresbury como
esperavam.
- Vocs saram com quatro cavalos e esto voltando com quatro cavalos - 
afirmou Vanda, para que a histria se fixasse bem na mente deles. - E, a 
menos que algum olhe dentro das nossas baias, no vai saber que dois 
desses cavalos no so do meu pai.
- A senhora tem razo, ns entendemos - Jim disse.
- Vamos dizer a todos que perguntarem que o conde ficou em Londres.
- Isso mesmo - Vanda disse, com alvio. -  muito importante que todos 
acreditem em vocs.
- E l na manso, como vai ser? - o outro cavalario perguntou.
- Contarei a mesma histria a Buxton e  sra. Medway.
Chegaram em casa, tomando o cuidado de no entrar
na aldeia para que ningum visse de perto os cavalos.
Vanda entregou Kingfisher a Jake, que estava  espera e entrou em casa.
Seu pai, tal como esperava, j estava no gabinete.
Ergueu o rosto com um sorriso ao v-la entrar.
- Que bom que est de volta, minha filha. Fiquei preocupado, ontem  
noite quando voc no chegou.
- Sinto muito, papai, mas  que aconteceu algo importantssimo que 
preciso lhe contar.
Ela fechou a porta, tirou o chapu, e, sentando-se diante do pai, contou 
toda a histria dos salteadores. Sir Alexander ouviu-a atnito.
- Por que no me contou antes? - perguntou, depois.
- Porque o senhor ficaria preocupado e no poderia fazer nada para 
expuls-los da ala oeste. Foi por isso tambm que eu no contei nada ao 
sr. Rushman.
- Pois eu acho que deveria ter nos contado! repreendeu-a. - Eu teria 
mandado buscar reforos no quartel imediatamente!
- Agora o conde est cuidando da situao e tenho certeza de que os 
bandidos sero capturados. O major Lawspn est atrs deles h meses.
-  vergonhoso acontecer uma coisa dessas! - sir Alexander exclamou com 
raiva. - E que incompetentes so esses que no conseguem prender um 
punhado de salteadores?
Vanda j esperava por aquela reao do pai; mas, por outro lado, sabia 
que havia poucos soldados naquela regio. Ainda mais que num condado como 
Wiltshire, onde havia tantas florestas, no era difcil que desordeiros 
conseguissem se esconder.
- O senhor sabe, no , papai, que ningum mais deve saber disso por 
enquanto! Eu vou at a manso dizer
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aos empregados que o senhor recebeu um recado de Londres dizendo que o 
conde precisou demorar-se mais por l e vir assim que puder. Espero que 
os salteadores fiquem sabendo dessa notcia.
- A culpa  dos Taylor - sir Alexander esbravejou.  vergonhoso terem se 
acovardado e deixado de nos informar!
- Pobres caseiros! Eles estavam aterrorizados, e agora que sabemos que 
tipos monstruosos so esses salteadores no podemos conden-los por isso!
O pai ficou calado e Vanda rompeu o silncio acrescentando:
- O senhor nunca me contou histrias de salteadores mais cruis do que 
esses, que so capazes de furar os olhos das vtimas para que no os 
reconheam, ou de mandar dedos e orelhas para os parentes a quem pedem 
resgate!
- No  bem o tipo de histria para se contar a uma criana! Concordo com 
voc, minha filha, o quanto antes esse bando for enforcado em Tyburn, 
melhor!
-  verdade, papai. Mas o senhor esqueceu que salteadores no so mais 
enforcados publicamente em Tyburn como antigamente? Era um costume 
brbaro e horrvel parecendo uma grande feira. Havia at vendedores 
ambulantes.
- Era realmente vergonhoso - concordou o pai. - Eu me lembro em criana 
de ter ouvido histrias horripilantes de mulheres da sociedade que 
ficavam l  espera do enforcamento como numa casa de espetculos!
- Agora a forca fica no ptio da Corte de Old Bailey
- Vanda disse. - E, embora no parea mais uma feira, o enforcamento 
ainda  aberto ao pblico.
- Para atos criminosos, acho que isso serve de freio numa sociedade - sir 
Alexander disse com firmeza e sem
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piedade.
Vanda apanhou seu chapu e encaminhou-se para a porta.
Assim era a Justia, e certamente o bando de Baker merecia morrer por 
seus crimes.
Contudo, ela no gostava de pensar em nenhum ser humano, por pior que 
fosse, pendurado pelo pescoo at morrer asfixiado.
Depois de almoar com o pai, tomando cuidado com o que diziam diante dos 
criados, sir Alexander voltou para seu gabinete.
Ento Vanda decidiu ir at a manso.
Kingfischer foi selado e ela entrou no parque pelo porto lateral que 
usava sempre.
A trote, tomou a direo do lago, pensando no conde.
Sabia o quanto ele devia estar frustrado por ter de ficar no quartel e 
no poder voltar para casa imediatamente.
Percebeu o quanto ele ficou contrariado com a deciso do major, embora a 
razo lhe dissesse que seria loucura agir de outro modo.
Sabia que o conde, como excelente soldado que era, no correria riscos 
desnecessrios.
Encaminhou-se para a porta principal da manso.
Buxton devia t-la visto se aproximando, pois um lacaio saiu logo na 
porta principal para segurar as rdeas de Kingfisher enquanto outro 
ajudava Vanda a desmontar.
Ela sabia fazer isso sozinha, mas gostou de ver a eficincia dos criados.
Buxton cumprimentou-a e ela respondeu j subindo os degraus da entrada:
- Boa tarde, Buxton. Papai me pediu para lhe trazer um recado que, 
infelizmente, vai deix-lo desapontado.
- Desapontado, srta. Vanda?
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- , chegou um recado dizendo a meu pai que o conde precisou demorar-se
um pouco mais em Londres, parece que por causa do primeiro-ministro, e
portanto no vai chegar como era esperado. Ele vir assim que puder.
- Ah, meu Deus! - exclamou o mordomo. - O cozinheiro vai ficar 
decepcionado, ele preparou tudo para um jantar especial esta noite.
- Foi o que imaginei - Vanda disse. - Mas, como o conde acabou de voltar 
da Frana,  compreensvel que tanta gente importante queira falar com 
ele!
- E vamos ter de esperar nossa vez, conformados. S espero que isso no 
demore muito.
- Pelo que o conde escreveu a meu pai, ele est to frustrado quanto ns, 
mas achamos que talvez ele consiga vir at o final da semana.
- Tomara que sim.
Depois, querendo mostrar seu servio, Buxton disse a Vanda:
- A senhorita no quer dar uma olhada na prataria que eu tirei do cofre e 
mandei limpar? Deu muito trabalho, mas acho que ficou como no tempo do 
antigo patro, que Deus o tenha.
- Eu adoraria!
Realmente valia a pena olhar a prataria. Havia belos exemplares de 
Lamerie e Paul Storr, alm dos talheres que datavam do reinado de George 
II.
Vanda sabia que Buxton tinha um modo especial de limpar prata que a 
deixava brilhando como diamante.
Estava tudo sobre a mesa da copa, por isso ela pde examinar 
detalhadamente pea por pea, como gostaria.
Depois foi ao andar superior para falar com a sra. Medway, que estava to 
ansiosa quanto o mordomo para mostrar seu servio.
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Vanda examinou o armrio das roupas de cama onde tudo estava lavado e 
passado e cheirava a lavanda.
O quarto principal, que sempre fora ocupado sucessivamente pelos condes 
de Wynstock, estava impecvel, com toda a moblia polida, os espelhos 
cristalinos e a seda do dossel limpa e perfumada.
O braso de Wyn, bordado sobre o fundo de veludo se sobressaa imponente.
Havia tambm flores nos vasos sobre a camiseira.
Vanda no pde deixar de pensar que, depois de tantos anos na guerra, o 
conde iria apreciar o conforto, o luxo e a grandeza de seu prprio lar.
A tarde j estava quase no fim quando Vanda saiu da manso.
Achou que devia ir falar com os Taylor, mas depois concluiu que seria um 
erro.
Era evidente que eles no haviam comentado nada sobre os salteadores e 
era melhor que as coisas ficassem assim, at que o bando estivesse atrs 
das grades.
O parque j estava mergulhado em sombras quando Vanda tomou o caminho de 
volta. E novamente ia pensando no conde.
Ento, de repente, Kingfisher estacou.
Nesse momento Vanda percebeu um homem a cavalo bem a sua frente, e logo
notou mais outros dois que se aproximavam um de cada lado.
Apertou as rdeas com fora, contendo um grito de susto.
O homem a sua frente impedia que Kingfisher prosseguisse.
Vanda encarou-o e viu que ele usava uma mscara.
- Se voc fizer o menor rudo, vai pagar caro por isso.
- Aquela ameaa, feita num sotaque forte, revelou o quanto
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o homem era inculto.
Ao mesmo tempo, um dos outros criminosos ao lado de Vanda tirou-lhe as rdeas da mo e comeou a puxar Kingfisher.
Vanda agarrou-se  sela, mordendo o lbio para conter a vontade de gritar.
O homem que ia na frente seguia rpido e os outros dois apressaram o passo para acompanh-lo.
Estava fora de vista e Vanda sabia que ningum veria para onde estava sendo levada.
Ela, porm, sabia para onde estavam indo.
Logo entraram no Bosque do Monge e, como o caminho ficou estreito, os homens que a ladeavam dividiram-se. O que conduzia as rdeas de Kingfisher seguiu na frente 
e o outro tomou a retaguarda.
Vanda ponderou que no havia como fugir. Estava aprisionada e completamente indefesa.
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CAPTULO VI

Quando chegaram ao centro do bosque onde ficavam as runas da pequena
capela, Vanda viu Baker. Sua atitude de comando era inconfundvel e tinha
o ar de autoridade que ela imaginara.
Esperava por Vanda, em p, enquanto os outros trs homens descansavam na 
relva.
- Seja bem-vinda a minha humilde morada, milady!
- disse em tom de zombaria e fez uma exagerada mesura.
Ela no respondeu nada.
Baker fez sinal para que um dos outros homens fosse pegar as rdeas de 
Kingfisher.
Vanda desconfiou que ele fosse tir-la da sela e, antes que o fizesse, 
tratou de desmontar depressa para evitar qualquer contato.
- Acho que nem preciso perguntar por que me trouxeram at aqui - ela 
disse, com um admirvel controle da voz.
- Imagino que voc seja suficientemente inteligente para adivinhar que, 
como o conde no nos honrou com sua presena, voc deve tomar o lugar 
dele! - Baker retrucou.
Vanda respirou fundo e mordeu o lbio.
Baker no estava usando mscara. Podia at ter sido um homem de aparncia 
decente, atendendo clientes em sua confeitaria. Agora, entretanto, havia 
uma certa dureza e crueldade em sua expresso.
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O rosto dele trazia rugas que no provinham da idade, sim da devassido.
- Se est curiosa - Baker prosseguiu, enquanto os homens a cavalo se 
afastavam levando tambm Kingfisher -, seu pai j recebeu um pedido de 
resgate.
- Quanto pediram por mim? - Vanda perguntou, com voz firme.
- Quanto voc acha que vale?
Ele a contemplava de modo atrevido e obsceno, deixando-a constrangida. 
Mas Vanda empinou o queixo e insistiu:
- Eu quero saber quanto o senhor pediu, sr. Baker.
- Ah, ento voc sabe meu nome! Como  possvel?
- O senhor deve saber que  muito famoso nas aldeias desta regio! - ela 
respondeu, evasiva.
- Famoso demais! - ele retrucou com rispidez. - Se nos denunciou para 
aqueles malditos soldados, eu mato voc!
O tom era to ameaador que Vanda sentiu o corao quase parar. Mas,
controlando-se, disse:
- J faz tempo que ouvi dizer que os soldados estavam procurando pelo 
senhor na floresta Savernake e no o encontraram.
Baker jogou a cabea para trs numa gargalhada.
- Ns os enganamos direitinho! E vamos enganar sempre. Assim que seu pai 
pagar o resgate vamos cair fora daqui!
- S espero que no tenha pedido mais do que o que ele possui.
- Ele pode pagar por voc o mesmo preo que aqueles malditos juizes 
determinaram por minha cabea!
O homem falou com tal violncia que Vanda ficou com mais medo ainda.
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Desta vez sua voz tremeu um pouco ao perguntar:
- E... Quanto  essa quantia?
Vanda quase perdeu o flego quando ele disse que eram mil libras e ainda 
acrescentou:
- E, quanto mais ele demorar, menos vai sobrar de voc para devolvermos!
Vanda sabia muito bem o que isso significava e sentiu uma vertigem como 
se fosse perder os sentidos.
Mas ento controlou-se e procurou arranjar coragem pensando que o conde e 
os soldados estariam l no dia seguinte. Tudo o que tinha de fazer era 
procurar ganhar tempo.
- Sabe, sr. Baker, acho que devo me sentir lisonjeada por meu preo ser o
mesmo que o seu! - disse, sem disfarar o sarcasmo.
Ele riu, antes de dizer:
- Gosto da sua coragem! S espero no precisar cortar muitos pedaos
seus!
- Nisso o senhor deve ter prtica, sem dvida! - retrucou Vanda, ainda
com sarcasmo. - Nunca sente saudades da sua confeitaria?
Baker fitou-a de olhos arregalados.
- Ento voc sabe disso tambm, hein? Pois foi gente como voc e esse
maldito conde, que no honram seus compromissos, que me levaram a esta
vida.
- Que por sinal eu acho muito triste...
- No me venha com piedade! Gosto do que estou fazendo e se preciso
torturar alguns malditos aristocratas para me sustentar eles bem que
merecem!
Falou de um jeito que teria deixado Vanda aterrorizada, se ela no
soubesse que logo iriam em seu socorro.
S rezava para que no lhe acontecesse nada enquanto no chegava esse
socorro.
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No olhara bem para os outros homens, mas tinha certeza de que eram muito
mais brutos e rsticos do que Baker.
Ele, at que de certa forma, tinha alguma elegncia e asseio e falava 
quase como uma pessoa bem-educada. Era evidente que provinha de uma 
classe social melhor do que a dos outros homens que comandava.
Olhou de relance para eles, deitados na relva. Mesmo sem ver bem os 
rostos, dava para saber que eram gente da sarjeta ou das favelas 
superpopulosas de Londres. Portanto s deviam conhecer privaes, fome, 
misria, crueldade e crime.
Os homens tinham amarrado os cavalos e, vendo que o lder do bando estava 
sem mscara, tiraram as deles.
- O que acha dela? - perguntou um deles a Baker, com ar de crueldade. - 
Uma belezinha, no ? Podemos nos distrair com ela enquanto o dinheiro 
no chega!
Dizendo isso deu um passo em direo a Vanda, que imediatamente recuou 
apavorada com o olhar dele.
- Deixe-a em paz - Baker disse. - Enquanto o dinheiro no chega, ela 
pertence a mim! Se no chegar, depois vocs tero sua vez!
Vanda ficou to assustada com aquelas palavras que seus joelhos 
bambearam.
- Posso me sentar? - ela perguntou. - Estive ocupada o dia todo e no 
tomei lanche...
- Isso no posso remediar - Baker disse. - Mas se quiser pode tomar um 
gole de conhaque.
- No, muito obrigada.
Ela olhou na direo das runas da capela, que ficava atrs da relva onde 
os homens estavam deitados. Baker seguiu o olhar dela.
-  l que voc vai ficar fechada durante a noite ele disse com rispidez. 
- E, se pensa que pode fugir, est
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muito enganada!
- No sou tola para tentar uma coisa dessas!
- Ouvi dizer que seu pai tem belos cavalos, melhores que os do conde! - 
Baker disse.
- Quase todos j esto muito velhos - Vanda retrucou,
- Esse que voc estava montando  excelente! Por isso vou ficar com ele, 
alm das mil libras que seu pai pagar por voc.
Vanda teve vontade de gritar. Como poderia deixar Kingfisher ser levado 
por homens como aqueles?
Ento procurou acalmar-se lembrando, mais uma vez, que o conde e os 
soldados iriam salv-la e salvar seu cavalo tambm.
No podia perder a cabea, acontecesse o que acontecesse!
Sabia por intuio que, se gritasse ou protestasse, eles poderiam ficar 
furiosos e trat-la pior ainda. Nem queria pensar no que lhe poderia 
acontecer se despertasse a ira deles!
Procurou um lugar para sentar que no fosse diretamente sobre a relva. 
Ento viu perto da velha capela uma rvore cada.
Devagar, para que os homens no pensassem que iria fugir, encaminhou-se
at l; depois, virou-se e sentou-se de frente para eles, com as costas
retas e a cabea erguida.
Baker, ainda em p, observava-a com um sorriso.
- Voc tem classe, menina! - ele disse. - Aprendi a reconhecer isso com 
as beldades que frequentavam minha confeitaria!
- Que pena que no tive a oportunidade de frequentar seu
estabelecimento...
- Se tivesse frequentado, provavelmente no teria pagado suas contas 
tambm, como todos os outros canalhas
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que se intitulam "Pequena Nobreza"! - Baker disse, com rudeza.
- Ah, isso no  verdade! - Vanda retorquiu. - Meu pai sempre paga o que 
deve, e eu tambm!
- Ento vocs so exceo da turma podre que circula em Londres chamando-
se de Beau Ton
Ele pronunciou errado as palavras em francs, mas Vanda o entendeu.
- Os Beau Ton - Baker repetiu e bateu o punho fechado na mo 
furiosamente. - Rpteis carnvoros,  assim que eu os chamo, e  o que 
eles so!
Antes que Vanda pensasse numa resposta, um dos homens do bando aproximou-
se.
- Est ficando escuro - disse com voz de quem andara bebendo - e estamos 
de estmago vazio!
- Ento acenda uma fogueira - Baker ordenou. Ningum vai ver a essa hora!
Depois virou-se para Vanda.
- No  verdade, mocinha? Ou ser que tem algum nos espionando? Se 
tiver, eu estrangulo voc com minhas prprias mos!
- E por que haveria de ter gente espionando o bosque?
- Vanda retrucou. - Ningum vem aqui, com medo do fantasma!
- Fantasma? Que fantasma? - perguntou um dos salteadores.
- O fantasma do monge que viveu nessa capela - Vanda respondeu. - Ele era 
um ermito e os aldees acreditam que ele aparece  noite rezando para os
animais que buscavam a proteo dele, quando estavam feridos.
Ela falava com suavidade e os homens ouviam com toda a ateno, inclusive 
Baker.
- Eu no gosto nada de fantasmas! - disse um deles.
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- Essas coisas me deixam arrepiado! Baker virou-se para ele, dizendo com 
rispidez:
- Pois voc no vai ficar aqui por muito tempo! Acenda a fogueira e vamos 
esperar, pelo bem da mocinha, que o dinheiro do resgate esteja na porta 
do pai dela ao amanhecer!
Vanda respirou fundo, pensando em como seu pai faria para arranjar mil 
libras antes do amanhecer. Ele jamais tinha muito dinheiro em casa e o 
sr. Rushman deveria ter no mximo umas cinquenta libras para o pagamento 
dos criados.
Talvez o pai mandasse um cocheiro a Trowbridge, acordar o gerente do 
banco. Ao pensar nisso, ocorreu-lhe que, com certeza, o pedido de resgate 
inclua um aviso dizendo que, se seu pai informasse aos juizes ou 
soldados o destino desse dinheiro, ela morreria.
Enquanto um dos homens acendia uma fogueira, ela ficou pensando se no 
seria avistada de longe. Depois lembrou-se de que eles j estavam ali h 
algum tempo e no entanto ningum tinha a menor ideia da presena deles. O 
bosque era muito fechado, no tinha guardas, e os aldees tinham medo de 
ir at ali. Por isso era isolado de todo contato humano.
Quando a fogueira j crepitava, os homens colocaram algumas estacas para 
segurar um espeto onde pretendiam assar uma pequena cora.
Deviam t-la caado no parque, pois j estava destripada e sem pele.
Colocaram-na no espeto com tal percia que Vanda no pde deixar de 
pensar que Baker os ensinara a fazer isso. Os outros homens contriburam 
para o jantar colocando batatas para assar na brasa.
Havia ainda um caldeiro que foi pendurado sobre as
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chamas e que, como Vanda descobriu depois, continha sopa de coelho e
pombo.
Cada homem tinha um prato raso e uma caneca que carregava em seu alforje.
Colocaram tudo isso sobre a relva e Vanda percebeu, ento, que no dariam 
nada para ela.
- Como voc  minha convidada - Baker disse em tom de zombaria -, vou 
dividir minha comida com voc.
- Acho que para agir corretamente eu deveria recusar com desprezo - Vanda 
disse, usando o mesmo tom de voz dele. - Acontece que estou morta de 
fome!
Baker riu.
- Voc tem coragem, menina! Depois eu lhe digo o que mais voc tem!
Havia uma insinuao maliciosa na frase e Vanda sentiu um tremor de medo. 
Sabia que estava andando numa corda-bamba. Era muito mais apavorante do 
que se estivesse presa e sozinha.
A sopa foi colocada nas canecas e Vanda achou-a at saborosa.
Pelo menos a caneca de Baker estava limpa, para seu alvio. Quanto s dos 
outros, j no se podia dizer o mesmo.
Alm disso, o modo como comiam a fez desviar o olhar para no ficar com 
nojo.
Assim que a cora ficou assada, avanaram sobre a carcaa cortando 
pedaos com facas que tiravam dos cintos. Vanda no pde deixar de pensar 
que ainda estivessem sujas de sangue humano.
Colocavam enormes pedaos na boca, cuspindo fora o que no queriam, e 
falavam de boca cheia deixando escorrer restos pelo queixo e cair nas 
roupas que j estavam imundas e manchadas.
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com tudo isso chegava a ser um alvio olhar para Baker.
Ele comia devagar, quase com a mesma delicadeza que ela. Suas mos estavam
limpas e o rosto barbeado.
Vanda tinha vontade at de perguntar como  que ele podia suportar viver
em companhia daqueles homens to rudes e brutos.
Podia entender agora por que o major Lawson dissera que Baker s se
interessava por dinheiro e nada mais.
Quando terminaram a sopa, cada um deixou sua caneca de cabea para baixo
sobre a relva a seu lado.
Vanda ficou imaginando se isso era algum costume con significado 
especial, mas logo entendeu o gesto quando Baker pegou uma garrafa de rum
que foi sendo passada de mo em mo  medida que enchiam suas canecas.
- Quer um pouco? - Baker ofereceu a Vanda. Ele enchera sua caneca
primeiro e antes limpara-a con
folhas de mato. Ela meneou a cabea.
- Tome um gole - ele insistiu. - Vai lhe fazer bem e mant-la aquecida.
Eu gosto de mulheres quentes!
Diante do tom malicioso, novamente Vanda sentiu aquele tremor de medo e 
comeou a rezar fervorosamente a Deus e a sua me, pedindo que o conde
fosse salv-la logo, livrando-a de passar a noite ali com aqueles homens.
Rezou com tal fervor que sentiu sua prece silenciosa voar para o conde 
como se fosse um pssaro.
Ergueu os olhos para o cu, tentando relaxar a tenso.
As estrelas j brilhavam e a luz comeava a surgir, prateando com seus 
primeiros raios o topo das rvores.
Rezou tambm para o monge.
Enquanto isso, os homens bebiam rum e conversavam entre si falando baixo.
Vanda sabia que falavam dela.
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Se acontecesse o que temia, s lhe restava matar-se! Mas no sabia se
teria coragem para isso.
Cada homem tinha uma faca e uma pistola. Ser que conseguiria se apossar 
de um desses instrumentos de morte? E ser que conseguiria utiliz-lo?
Ento, quando a fogueira comeou a apagar e a luz j estava bem alta no 
cu, percebeu como era tarde.
Baker despejou o ltimo gole de rum da garrafa em sua caneca e levou-a 
aos lbios, esvaziando-a, depois ergueuse e estendeu a mo para Vanda.
- Agora voc vem comigo, deixe esses homens a dormindo sozinhos.
Vanda abriu a boca para gritar, mas a voz no saiu.
Ento, nesse momento, ouviu-se um rudo na floresta, um som que no era o 
de animais se locomovendo.
O som se repetiu e agora os homens olhavam na direo de onde vinha, 
atentos, em expectativa.
- Bem, acho que no podemos fazer mais nada por enquanto - o major Lawson 
disse.
- ... Parece que j consideramos todas as hipteses
- concordou o conde.
Os dois homens haviam traado planos a tarde toda, consultando mapas, 
desenhando esquemas e pensando em todos os aspectos de uma tocaia para 
garantir que o bando de Baker no conseguisse escapar daquela vez.
- S podemos esperar, agora - o major disse, pela dcima vez -, que eles 
no saiam de l antes de chegarmos.
- Se esto esperando por mim, acho pouco provvel - retrucou o conde.
O major espreguiou-se, sentindo o efeito de ter ficado sentado por um 
longo tempo. O conde sentia o mesmo.
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- Vamos at minha casa, tenho certeza de que o senhor precisa de uma
bebida! Bem, pelo menos sei que eu preciso!
O conde ia responder alguma coisa, quando bateram na porta.
O major havia dado ordens para que no fossem interrompidos e estranhou.
Reuniu os papis que estavam sobre a mesa antes de di zer com voz severa:
- Entre!
A porta abriu-se, um sargento entrou na sala e fez con tinncia:
- Companhia apresentando-se, sir! O major sorriu.
-  bom t-lo de volta, sargento. E ento, nossos homens se saram bem?
- Sim senhor, sir. Recebemos uma medalha dos que dirigiam o exerccio.
- Meus parabns - o conde disse.
- Quantos homens voltaram com voc? - perguntou o major.
- Toda a minha companhia, sir. Os outros chegaro daqui a uma hora.
- timo! - disse o major.
Depois de dispensar o sargento, disse ao conde:
- Sei que o alegrar saber que podemos partir amanh bem cedo.
Por instantes o conde ficou calado, depois, vendo o olhar de surpresa do 
major, falou:
- Eu acho essencial partirmos hoje  noite!
- Hoje  noite? Mas no escuro ser difcil achar o caminho!
- Ao contrrio, esse fato nos favorecer - retrucou
100
o conde. - E depois, estamos na lua cheia. Ontem ela iluminou meu caminho
para chegar em Gresbury.
- Mas o resto da tropa s chegar dentro de uma hora e, depois de terem 
feito exerccios de manobra o dia todo, os homens devem estar famintos e 
cansados!
- Quando h batalha - redarguiu o conde -, um soldado s vezes passa 
vrias noites sem dormir.
O major enrubesceu.
- Peo desculpas, milorde - disse. - Eu falei como um soldado em tempo de 
paz.
O conde assumiu o comando da situao.
- Isso  o que eu pretendo fazer, e seus homens devem me seguir.
O ba do conde tinha sido levado para a casa do major e seu criado 
retirara as roupas, deixando sobre a cama um traje para noite.
Em cinco minutos o conde se trocou e quando desceu j havia um cavalo 
selado esperando diante da porta.
Era o que o conde havia pedido: o mais veloz do quartel.
No se comparava aos que comprara em Londres, mas sabia que seria mais 
rpido do que os cavalos que o general emprestara.
O major no o viu partir, estava ocupado dando ordens e instruindo os 
soldados sobre o que fazer.
O conde saiu a galope, atravessando o campo. No teve dificuldade em
encontrar o caminho na claridade do fim do dia.
Quando se aproximou de Little Stock j estava escurecendo e a primeira 
estrela apareceu no cu. Logo chegou na casa de Vanda.
Como no era esperado, no havia cocheiro para receblo e pegar seu 
cavalo, por isso foi direto ao estbulo.
Jim, o cocheiro mais velho, apareceu e olhou-o com
101
espanto.
- Ora, mas  o senhor, milorde? O que aconteceu aos nossos cavalos?
- Eles viro depois.
Sem dizer mais nada, encaminhou-se para a porta da frente da casa que 
estava destrancada e entrou sem bater.
Imaginou que Vanda devia estar jantando, mas ao abrir a porta da sala no 
encontrou ningum.
Foi, ento, at o corredor e abriu a porta do gabinete do general.
L estavam ele e o sr. Rushman, sentados diante da escrivaninha.
Ambos ergueram a cabea num sobressalto, olhando-o espantados, mas logo 
sir Alexander rompeu o silncio, exclamando:
-  Neil! Graas a Deus voc est aqui, meu rapaz! Falou com tal 
veemncia que o conde, preocupado, perguntou:
- Por qu? O que aconteceu?
- Desculpe-me por no me levantar - disse o sr. Rushman, que estava com a 
perna esticada sobre uma banqueta. - Mas...
- No se preocupe com isso - o conde disse, apressado. - Onde est Vanda?
-  isso que eu queria lhe dizer - falou o general. Mas... ela me disse 
que voc s chegaria amanh.
- Onde est ela? - o conde repetiu, aflito. O general entregou-lhe uma 
folha de papel. Mesmo antes de l-la Neil j imaginava o que continha.
No quisera admitir, mas tivera um pressentimento de que ela estava em 
perigo. Por isso insistira em movimentar as tropas  noite. No papel 
estava escrito:
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"Aprisionamos sua filha. Se no deixar mil libras na soleira de sua 
porta, ao amanhecer, ns lhe mandaremos um dedo dela a cada duas horas, 
at que o resgate seja pago. Se informar algum sobre isso, ela morre"!
- O que pretende fazer? - o conde perguntou.
- O sr. Rushman e eu juntos s conseguimos reunir pouco mais de cinquenta 
libras - retrucou o general. Mandamos Hawkins, com o cavalo mais veloz, 
at o banco em Trowbridge para conseguir o resto.
com ar preocupado, acrescentou:
- Agora estamos rezando para que o gerente consiga essa quantia, embora o 
banco esteja fechado.
- A que horas acha que ele estar de volta?
O general fez um gesto vago. Todos eles sabiam que Trowbridge ficava a 
uns dez quilmetros de Little Stock.
Era pouco provvel que Hawkins voltasse antes de meia-noite.
- No podemos esperar tanto tempo sem agir. Os soldados devero chegar 
assim que puderem, mas... eu no vou ficar aqui parado, vou procurar 
Vanda!
Os dois olharam-no, atnitos.
- No posso deix-la  merc desses malfeitores impiedosos! Ela  bonita 
demais e isso pode ser um perigo!
O general apertava as mos, sem dizer nada.
- H alguma mulher na casa? - perguntou o conde.
- S a cozinheira, chama-se Jennie - respondeu o general.
Sem explicar mais nada, o conde correu para a cozinha.
Encontrou Jennie diante do fogo.
Dobson arrumava as travessas de prata sobre a mesa da cozinha.
Os dois ficaram surpresos ao v-lo entrar e aproximarse de Jennie.
103
- Quero que voc me faa uma mscara, o mais rpi do possvel!
- Uma... mscara... sir? - admirou-se ela.
- Milorde! - corrigiu-a Dobson.
- Milorde - corrigiu-se Jennie, fazendo uma rev rncia.
- A srta. Vanda est em perigo - Neil explicou rapi damente - e no h 
tempo a perder. Por favor, faa de pressa uma mscara como a que os 
salteadores usam.
Jennie no conteve um grito de horror. Largou a panela que estava 
segurando e correu para bus car a cesta de costura.
- E agora? Onde vou arranjar pano preto?
- Voc est com uma angua preta - Dobson ob servou.
- Tire-a! - o conde ordenou. - Eu lhe darei outra muito melhor, depois.
O conde voltou depressa para o gabinete.
- O que pretendo fazer, general - foi ele dizendo -,  encontrar Vanda no 
Bosque do Monge.
Antes que o general tivesse tempo de dizer alguma coisa, ele prosseguiu:
- Quando as tropas chegarem, o major Lawson vai entrar em contato com o 
senhor imediatamente.
Ia dizer algo mais, porm exclamou:
- Ah, esqueci uma coisa!
Saiu do gabinete correndo e voltou para a cozinha.
- Oua - disse o conde a Dobson -, quero duas garrafas de vinho tinto da 
adega do seu patro, uma de gim, e outra de vinho borgonha.
- Temos tudo isso, milorde - Dobson respondeu.
- Ento v buscar depressa. Abra as garrafas, misture o lquido de todas 
elas e encha-as de novo.
104
Fez uma pausa e perguntou:
- Voc entendeu?
- Sim senhor, milorde.
Dobson tambm j estivera no Exrcito e portanto estava acostumado a 
obedecer a ordens sem fazer perguntas.
Enquanto ele foi para a adega, o conde voltou para o gabinete e explicou 
rapidamente ao general o qui planejara com o major Lawson durante a
tarde.
Disse ainda que o major ficara de ir  casa do general para saber se
havia algum dado novo.
- Insista com o major, por favor, para que faa os homens se locomoverem 
em absoluto silncio, para que os salteadores s os percebam quando j
estiverem cercados e for tarde demais.
- Entendi perfeitamente, meu rapaz, e cumprimento-o pela excelente ideia!
-
respondeu o general.
- S no esperava que Vanda estivesse nas mos dos bandidos, isso o 
senhor precisa contar ao major.
Nesse momento, Dobson entrou no gabinete trazendo a mscara. Jennie era
boa costureira e fizera-a como o conde a imaginara.
A mscara cobria-lhe boa parte do rosto e seria difcil, mesmo para os 
que o conheciam bem, identific-lo.
-  exatamente o que eu queria! - disse, satisfeito, olhando-se no 
espelho.
Depois virou-se para o general.
- Deseje-me sorte. Espero chegar a tempo de impedir que Vanda sofra nas 
mos daqueles criminosos!
O general pousou a mo no brao de Neil e disse:
- V com Deus, meu rapaz.
Ento o conde saiu correndo da casa em direo ao estbulo para pegar seu 
cavalo.
Deu ainda algumas instrues ao cocheiro, que o olhava
105
perplexo.
- V imediatamente! - ordenou ao criado.
- Sim senhor, milorde.
Ele ainda selava outro cavalo quando o conde j estava longe.
Aquela hora, o luar transformava o jardim num cena rio de grande beleza.
Parecia impossvel que houvesse algum mal escondido no Bosque do Monge.
O conde encontrou o caminho que terminava no parque e dirigiu-se para o
centro do bosque.
O luar, filtrado pelos galhos das rvores, criava estranhos desenhos
prateados no cho.
O silncio parecia absoluto e  medida que o conde avanava comeou a
temer que os salteadores tivessem ido em bora com Vanda para outro lugar.
Caso fosse verdade, o plano de captura seria intil. Ento, de repente, 
pareceu-lhe ouvir vozes ao longe. Pouco depois vislumbrou uma claridade 
de fogueira e pensou, esperanoso, que em poucos minutos chegaria at 
Vanda. S esperava que se ela o reconhecesse no o chamasse para salv-
la.
Se fizesse isso poria em perigo a vida deles dois, ficariam ambos  merc 
de homens que no tinham piedade alguma dos inimigos.
Mais um instante e chegou  clareira no centro do bosque.
Olhou de relance e viu seis homens sentados ao redor de uma fogueira 
quase extinta e um outro em p; mais adiante, sentado no tronco de uma 
rvore, estava Vanda.
Depressa, temendo que ela dissesse qualquer coisa, Neil falou:
- Boa noite, irmos! Ser que posso me juntar a vocs?
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 com o maior respeito que cumprimento seu lder, Bill Baker!
Parou o cavalo perto dos homens e percebeu que todos puseram as mos nas 
armas que levavam nas cintas.
- Quem  voc? - perguntou Baker.
- John Garrai, a suas ordens! E, naturalmente, um "Cavaleiro da Estrada"!
O conde falou com tais floreios que um dos homens caiu na gargalhada. 
Pouco depois todos os outros estavam rindo tambm.
- Voc, sem dvida, parece bastante satisfeito! - disse um deles.
- Mas no to satisfeito quanto vocs devem estar retrucou o conde 
olhando para Baker. - Cumprimento-o pela captura da herdeira! Confesso 
que eu mesmo estava pensando em fazer isso com ela!
- Herdeira? - Baker admirou-se.
O conde olhou para ele como se estivesse surpreso.
- Quer dizer que no sabe disso?
- No sei o qu?
- Que ela - o conde disse, apontando para Vanda tem uma fortuna de mais 
ou menos quinze mil libras!
- Eu sabia que o pai dela era rico, mas... - Baker disse.
- Ela tem o dinheiro dela, que herdou da me - informou o conde.
Baker coou o queixo.
- Isso modifica as coisas... - falou. - Se o que est dizendo  verdade, 
eu pedi pouco pelo resgate.
- Quanto voc pediu?
- O mesmo que pediram pela minha cabea: mil libras. O conde ergueu as 
mos num gesto de desaprovao,
exclamando:
- Voc est sendo lesado! Eu tenho uma ideia muito
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melhor do que essa, em se tratando de herdeiras!
- E que ideia  essa? - Baker perguntou a contragosto. Estava se 
ressentindo da interferncia desse homem
recm-chegado, que parecia to esperto quanto ele.
O conde olhou-o atravs da mscara e coou o queixo pensativamente, 
depois falou:
- Que tal se eu lhe dissesse como cada um poderia ganhar mil libras e
voc deixa o resto para mim?
- No acredito que o velho arranje esse dinheiro nem em mil dias! - Baker 
retrucou. - E no pretendo esperar tanto!
-  claro que no! - o conde concordou. - Eu pretendo partir ao amanhecer 
e, se voc no est interessado na minha ideia, no vou pression-lo.
- Mas eu "estou" interessado!  claro que estou! Baker falou irritado. -
S no acredito que seja possvel!
- Vamos ouvir o que  - disse um dos homens, interessado.
Todos concordaram.
-  isso, vamos ouvir. Ele parece ser esperto.
- Est bem, fale logo. Diga como podemos ganhar mil libras cada um.
- Exatamente do mesmo modo que o capito James Campbell.
- Campbell? - repetiu Baker, pensativo.
- E sir John Johnson - o conde acrescentou.
- E o que foi que eles fizeram? - Baker insistiu.
- Pois eu lhe digo: raptaram uma rica herdeira e sir John casou com ela!
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CAPITULO VII

Vanda ficara to chocada com o que Baker dissera que estava quase
paralisada de medo.
No parava de pensar em como poderia se matar antes que ele a tocasse.
Foi ento que, de repente, surgiu um homem a cavalo na clareira.
Ao ver que era um outro salteador, Vanda sentiu aumentar sua desolao. 
Mas quando ele comeou a falar ela se empertigou, olhando-o bem e achou 
que devia estar sonhando.
Conhecia aquela voz, mas no podia acreditar que vinha de um homem com o 
rosto coberto pela mscara negra usada pelos salteadores.
O conde continuou falando e, ento, teve certeza de que era realmente 
ele.
Seu primeiro impulso foi o de correr para ele, atirar-se em seus braos e 
pedir-lhe que a tirasse dali. Mas a mente logo lhe disse que se fizesse 
uma tolice dessas destruiria Neil.
Se os salteadores desconfiassem que estavam sendo enganados pelo conde, 
eles o matariam sem piedade.
Vanda entrelaou os dedos e comeou a rezar para que o disfarce dele no 
fosse descoberto.
Percebeu que ele falava como se quisesse manter os homens ali por mais 
tempo. Imaginou que os planos que ele
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fizera para que os soldados fizessem o cerco pela manh tinham sido 
alterados. Da, ouviu-o falar de sir John Johnson e seu casamento com uma 
herdeira.
Lembrou-se de que era a histria que contara a ele, e entendeu que o 
conde estava tentando salv-la de um modo muito sutil.
Ento, ouviu Baker dizer:
- No acredito que voc possa fazer isso!
- Eu posso e fiz! - retrucou o conde.
- Ento, onde est sua mulher agora?
O conde deu uma risadinha antes de responder:
- Agora voc j est querendo saber demais! Baker riu Bambem e disse:
- Voc  mesmo um sujeito esperto, sem dvida, e ns no vamos reclamar 
de algumas libras a mais, no , rapazes?
Houve um murmrio de assentimento entre os bandidos. Eles prestavam muita 
ateno a tudo que estava sendo dito, quase como se o conde os tivesse 
hipnotizado. Neil, que j havia desmontado, foi at seu cavalo.
- Para mostrar que estou com boas intenes e falando srio - ele disse -
, eu tenho algo que fala mais do que as palavras.
Sempre atenta, Vanda viu que ele retirou do alforje uma pequena bolsa do 
tipo que o sr. Rushman usava quando ia pagar os salrios.
O conde abriu a bolsa e esvaziou o contedo na mo.
As moedas brilharam ao luar por instantes, ento ele gritou:
- Peguem!
E num gesto teatral jogou-as para o ar. Moedas espalharam-se e caram 
entre os homens.
Eles se atiraram no cho, rastejando para procur-las.
110
 medida que recolhiam as moedas, alguns mordiam-nas para ter certeza de 
que eram reais.
- Esse  meu presente de casamento para vocs! - disse o conde. - Agora 
dois de vocs vo depressa buscar o padre!
- E como  que vamos saber se depois de voc casar com a moa ns vamos 
receber o dinheiro? - Baker perguntou.
- Vocs vo ter de confiar em mim - o conde retrucou. - Por outro lado, 
eu lhes darei um documento escrito, comprometendo-me a dar mil libras
para cada um de vocs que estiver vivo.
- Parece justo - gritou um dos bandidos, temendo que Baker recusasse.
- Mas se no trouxerem o padre depressa no recebero nada - disse o 
conde. - Ele mora na casa ao lado da igreja que fica do lado esquerdo da 
estrada.
Dois homens correram para seus cavalos.
- Voltem com ele o mais depressa possvel - o conde ordenou.
- Voc, sem dvida, sabe como dar ordens! - Baker disse, com sarcasmo. - 
Como sabe de tudo isso?
-  que h muito tempo venho planejando raptar essa herdeira. Mas, da, 
vocs estragaram minha festa!
Baker sorriu.
- Muitos de ns num lugar s - o conde prosseguiu.
- Por isso achei melhor unirmos nossas foras!
- , isso faz sentido - Baker respondeu.
O conde tirou do bolso um pedao de papel e encaminhou-se para onde 
estava Vanda. Sentou-se no mesmo tronco sem olhar para ela.
Vanda, entretanto, sentiu todo seu ser vibrar com aquela proximidade e 
sabia que ele percebia isso.
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Neil fingiu escrever enquanto lia em voz alta o que j estava escrito no 
papel. Depois ergueu-se e entregou-o a Baker.
- Acho que isso  o que voc queria antes que eu entrasse em cena - 
disse.
Erguendo o papel para que o luar o iluminasse Baker leu:
- , parece justo, mas ainda no sei como voc vai conseguir...
- Assim que ela se tornar minha esposa, a lei diz que a fortuna dela, 
passa a ser minha.
Baker assentiu e o conde prosseguiu:
- E o que eu farei com essa fortuna  assunto meu. Ser mais seguro 
deposit-la num banco em Londres. Voc deve me dizer onde podemos nos 
encontrar daqui a... digamos, trs ou quadro dias.
Baker demonstrou no gostar da ideia de ir a Londres e os dois ficaram 
discutindo outro lugar, mas sempre um fazia objeo ao que o outro 
sugeria.
S Vanda sabia que o conde procurava ganhar tempo, e ficava atenta aos 
rudos para saber se os outros homens j estavam voltando com o padre. A 
igreja no ficava longe dali.
Ento, lembrou-se de que o padre, um homem idoso, j deveria estar na 
cama. Teria ainda de vestir-se e seria impossvel para o conde manter 
Baker distrado, falando o tempo todo.
Finalmente os dois pareceram ter chegado a um acordo.
- Agora o que temos a fazer  esperar pelo padre. Ah, eu tenho algo para
fazermos um brinde a minha felicidade! - disse o conde, fingindo 
naturalidade.
Os homens riram e fizeram comentrios que Vanda no entendeu, mas 
adivinhou que eram vulgares e obscenos.
O conde foi at seu cavalo, novamente, e pegou as garrafas
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no alforje. Entregou duas a Baker, depois foi buscar mais duas.
- Devo dizer que o mercador de vinhos de quem adquiri isso relutou 
bastante em separar-se das garrafas...
Falou dando a entender que assaltara o homem e todos riram fazendo 
piadas.
- No deu para pegar mais - falou o conde. - Mas h mais de meia garrafa
para cada um de ns e vamos deixar uma para os rapazes que foram buscar o
padre.
- Eles arrancariam seu couro se se esquecesse deles!
- disse um dos homens, caoando.
O conde abriu a primeira garrafa e entregou-a a Baker que deu um longo 
gole e devolveu a garrafa quase sem flego.
- Santo Deus! - exclamou quando conseguiu falar.
- Que diabo voc ps no vinho... dinamite?
- O melhor conhaque francs entre outras coisas o conde retrucou.
A garrafa passou de mo em mo. Os homens tinham se reunido em crculo e 
reacenderam a fogueira.
Em duas rodadas a garrafa se esvaziou. A segunda estava circulando quando 
Vanda ouviu rudo de cascos de cavalo.
Achou impossvel que os homens j estivessem de volta, mas logo em 
seguida os rapazes entraram na clareira acompanhados do padre.
Ele desmontou logo. Estava de batina e pegou os paramentos que trouxera 
pendurados na sela.
Baker adiantou-se como para mostrar quem era a autoridade ali.
- Boa noite, padre. Vejo que concordou em vir unir um homem e uma mulher 
pelos sagrados laos do matrimnio!
113
Falava em seu costumeiro tom jocoso, mas o padre respondeu com voz
calma:
- No tive escolha, porm o importante  que estou aqui.
Ento o conde aproximou-se dizendo:
- Se o senhor realizar a cerimnia na velha capela estar em territrio 
santificado.
Sem olhar para ele, o padre colocou os paramentos, depois passou pelos 
homens que estavam sentados no cho e entrou na capela.
Os dois homens que o tinham trazido juntaram-se aos companheiros que lhes 
deram a ltima garrafa.
O padre analisou rapidamente o que restara da capela. Parte do altar 
ainda estava l, mas o teto rura e no sobrara nada das janelas.
O padre ajoelhou-se entre as pedras.
O conde tirou o chapu, depois estendeu a mo e puxou Vanda, fazendo-a 
ficar a seu lado.
O padre fez o sinal da cruz, ergueu-se e virou-se para o casal. Dirigiu-
se primeiro a Vanda.
-  da sua vontade que esse casamento se realize? perguntou.
- ... - disse ela, num tom quase inaudvel, sentindose de repente 
tmida.
Tudo aquilo lhe parecia um sonho, mas, por outro lado, seu corao era 
invadido por uma felicidade bastante real.
O conde a estava salvando de Baker e de todos aqueles homens brutos e 
cruis. J no precisava mais pensar em matar-se, se  que teria coragem 
para tal.
Neil segurava sua mo e ela sentia a firmeza dele, e, embora ainda 
estivesse com medo, no pde reprimir uma onda de emoo.
114
O padre olhou para o conde e, antes que dissesse algo, este o avisou:
- Meu nome  John.
- Repita comigo: eu, John, te aceito, Vanda, como legitima esposa...
O conde repetia as palavras devagar e com toda a seriedade, em sua voz 
grave e sonora, terminando com "at que a morte nos separe".
Vanda temia estar cometendo um sacrilgio, mas logo ouviu-se dizendo, com 
voz doce:
- Eu, Vanda, te aceito, John, como meu legtimo esposo...
O conde tirou seu anel de sinete e colocou-o no dedo anular da mo 
esquerda dela.
Sentiu-a tremer com esse contato e entendeu que no era de medo.
Ambos ajoelharam-se e o padre os abenoou, depois virou-se para o altar 
novamente.
Enquanto a cerimnia era realizada os homens ficaram calados, mas, agora, 
comearam a gritar:
- Beije a noiva! Beije, seno ns a beijamos por voc! Gritavam todos ao 
mesmo tempo, e Vanda percebeu que
as vozes eram as de pessoas embriagadas.
A bebida que o conde oferecera devia estar fazendo efeito.
Olhou para eles, nervosa.
Ento sentiu o conde enla-la e pux-la para si, depois os lbios dele 
pousaram nos seus.
Foi um beijo delicado e suave que despertou em Vanda uma forte emoo. 
Entendeu, ento, que o amava e entregou-lhe o corao. J no importava o 
que aconteceria depois.
Os homens tinham se calado mas recomearam a
115
gritaria.
Vanda no tinha a menor ideia do que estavam dizendo. Sentia apenas que 
estava entre as estrelas, ela e Neil, num mundo s deles.
Foi ento que ouviram rudo de pessoas se aproximando por entre as 
rvores.
Baker, que estava mais sbrio do que os outros, ouviu tambm.
O conde, num gesto rpido, puxou Vanda para o cho e postou-se diante 
dela.
Baker sacou a pistola e atirou no escuro. A bala acertou uma rvore.
Um outro tiro ecoou. Baker oscilou e caiu no cho.
Os outros homens comearam a gritar, mas surgiram soldados de todos os 
lados, cercando a clareira, com as armas apontadas para eles.
Embriagados como estavam, no conseguiram nem sacar suas armas enquanto 
os soldados avanavam.
O major Lawson dirigiu-se para o conde.
- Viemos o mais rpido que pudemos, milorde - disse com um sorriso.
- E chegaram na hora exata! - o conde retrucou. Mas infelizmente o senhor 
no vai poder capturar o chefe do bando.
Ambos olharam para o corpo inerte de Baker, estendido no cho. O palet 
estava aberto no peito e uma mancha vermelha tingira sua camisa.
- H um prmio de mil libras pela cabea dele - o major disse. - E  
claro que ele pertence ao senhor.
- Pois eu proponho - retrucou o conde - dobrar essa quantia para que o 
dinheiro seja dividido entre seus homens que conseguiram chegar aqui to 
depressa, apesar de estarem cansados de um dia inteiro de exerccios.
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Os olhos do major se iluminaram.
 -  muita generosidade sua, milorde. Eles vo ficar muito felizes!
Ento o major virou-se para cumprimentar o padre, parado na entrada da 
capela.
S ento o conde lembrou que no tinha tirado a mscara ainda. Arrancou-a 
do rosto, dizendo:
- Obrigado, padre, o senhor desempenhou seu papel brilhantemente. A srta. 
Charlton e eu conversaremos melhor com o senhor sobre isso amanh. Agora 
preciso levla para casa.
- Sei que o general deve estar ansioso para saber o que aconteceu - o 
padre retrucou.
O conde percebeu que Vanda no estava em condies de conversar com 
ningum. Conduziu-a para onde estavam os cavalos, ergueu-a nos braos e 
colocou-a sobre a sela de Kingfisher. Depois, sentindo que ela estava 
fraca para cavalgar sozinha, montou na garupa do cavalo.
Vanda sentiu o brao dele enlaando-a, segurando-a com firmeza, e 
descobriu que essa era a sensao mais maravilhosa do mundo.
Ao passarem pelo major, que ainda conversava com o padre, o conde falou:
- Obrigado pelo emprstimo do cavalo. Estou deixando-o aqui para que 
seja levado de volta ao quartel.
O major fez continncia e o conde embrenhou-se no bosque devagar.
No demorou, porm, a chegar ao porto lateral do parque que Vanda 
costumava usar.
Para surpresa dela, o conde deteve Kingfisher e s ento falou:
- Voc est bem?
Ela fora o percurso todo em silncio, com a cabea apoiada
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no peito dele e, naquele momento, ergueu os olhos para Neil.
- Voc foi to maravilhoso! Como conseguiu me salvar?
- Eu devia ser fuzilado por no ter percebido logo que voc estava 
correndo perigo! - o conde retrucou. - Como no imaginei que se eu no 
aparecesse aqueles canalhas iriam voltar a ateno para voc?
- Voc me salvou justamente quando eu j estava pensando em me matar para 
escapar deles...
Neil estreitou o abrao.
Ento, como se no houvesse palavras capazes de tranquiliz-la, ele se 
curvou e beijou-a nos lbios.
Beijou-a at que mais uma vez Vanda sentiu-se entre as estrelas.
O medo e o desespero se dissiparam nela e seu tremor agora era de xtase. 
Neil afastou o rosto, e ela balbuciou com voz comovida:
- Eu amo voc... Amo voc.
- E eu amo voc! No suporto pensar que quase a perdi!
Quando chegaram na casa de Vanda, seu pai e o sr. Rushman estavam 
espera ansiosos e preocupados querendo saber o que tinha acontecido. Por
isso ficaram ainda algum tempo conversando. Neil contou que, na tarde 
anterior, no quartel, foi s quando o sargento voltou dos exerccios de 
manobra que percebeu que Vanda poderia estar se expondo ao perigo.
No lhe havia passado pela mente que ela fizera a loucura de cavalgar 
sozinha pelo parque.
Depois de Vanda ter ido embora, o conde e o major sentaram-se para 
discutir os planos de ataque.
- Eu no quis dizer nada na frente da srta. Charlton,
118
 claro - o major falou -, mas Baker e seu bando fizeram coisas 
terrveis em vrias aldeias nossas! Fizera uma pausa e depois
prosseguira:
- Eles violentaram muitas jovens e mataram os homens
que tentaram defend-las.
Os dois continuaram conversando e traando planos at que, de repente, 
como se algum lhe sussurrasse ao ouvido, o conde intuiu que Vanda estava 
em perigo.
Tinha achado-a encantadora, espirituosa e muito bonita. E, talvez porque 
se conhecessem desde crianas, sentiu haver uma espcie de afinidade 
entre eles. Podia ler os pensamentos dela como se fossem parte um do 
outro.
Enquanto cavalgava a galope em direo  casa de Vanda, lembrou-se da 
histria que ela lhe contara sobre o capito James Campbell e ficou 
aterrorizado.
Se os soldados demorassem, Baker poderia invadir a aldeia ou at mesmo a 
casa de Vanda e rapt-la!
Quando soube pelo general que Vanda estava realmente nas garras de Baker, 
entendeu que tinha de salv-la a qualquer custo, nem que para isso 
perdesse a prpria vida.
Como sempre, diante do inimigo ele conseguia manter o sangue-frio e 
mostrar autocontrole. Era quase como se uma fora maior do que ele o 
guiasse, inspirando-o. Fora por isso que tinha mandado o cocheiro do 
general ir at a parquia avisar o padre para que esperasse os 
salteadores e fosse com eles.
Vanda ficara sabendo pelo general que fora o conde quem arquitetara todo 
o plano e tomara todas as providncias para salv-la. Mas estava to 
esgotada que mal conseguiu responder s perguntas do pai e do sr. 
Rushman. Ento, por insistncia do conde, resolveu ir deitar-se.
Neil conduziu-a escada acima, abriu-lhe a porta do quarto e, depois, 
envolvendo-a nos braos beijou-lhe at que
119
sentisse a casa toda girando  volta deles.
- V para a cama, meu amor - ele disse. - Voc est a salvo e ningum 
mais vai lhe fazer mal. Conversaremos amanh sobre ns dois.
Beijou-a de novo, empurrou-a delicadamente para dentro do quarto e fechou
a porta.
Vanda ouviu-o descer a escada e seus olhos se encheram de lgrimas.
- Obrigada, meu Deus! Obrigada! - repetia, emocionada.
Quando acordou, o sol brilhava e ela se sentiu feliz como nunca em toda 
sua vida.
Vestiu-se depressa, escolhendo um de seus vestidos mais bonitos para 
agradar ao conde. E, ento, pela primeira vez, perguntou-se se estariam 
realmente casados.
- Eu o amo - disse para si. - Mas como ele pode me amar tendo conhecido 
tantas outras mulheres? Quem sabe ele j tem algum...
Sentiu-se como se estivesse acordando de um sonho, lindo e mgico, mas 
apenas um sonho. E seu corao se apertou.
Lembrou-se de que o casamento entre sir John e a herdeira que ele raptara 
fora anulado por proclamao real.
De repente o sol pareceu ter perdido todo o brilho.
Tinha imaginado que o casamento fora real e que o conde a beijara porque 
a amava. Mas talvez no fosse isso. Qualquer homem a teria beijado, s 
pelo alvio de estarem salvos...
Quanto mais pensava nisso, mais conclua que tinha sido precipitada em 
suas dedues e at presunosa.
Desceu devagar e sem nimo. Era tarde demais para tomar o caf da manh. 
Alm do mais, no estava com fome.
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A casa parecia deserta, mas ela sabia que o pai devia estar no gabinete.
Foi para a sala. O sol invadia as janelas iluminando o aposento. Contudo, 
Vanda sentia-se no meio de um nevoeiro sem conseguir achar seu caminho.
- O que devo fazer? O que devo falar para ele? perguntava-se, angustiada.
Acabou decidindo que o mais importante era no fazer Neil sentir-se 
preso. Tinha certeza de que havia centenas de mulheres querendo se casar 
com ele... Talvez at j estivesse comprometido...
- Preciso deixar bem claro que no vou prend-lo de modo algum, e que 
para ele voltar a ser livre concordo com tudo o que me sugerir.
Na manso, o conde, que estava acostumado a dormir pouco, acordou na hora 
de costume.
Tinha chegado em casa montado em Kingfisher. Deixou o cavalo na cocheira 
e, quando entrou em casa, o lacaio da noite foi correndo chamar o 
mordomo.
Buxton levantou-se e vestiu-se em poucos minutos.
- Lamento profundamente no ter estado aqui para lhe dar as boas-vindas, 
milorde, mas  que no espervamos que chegasse... agora.
O conde estendeu-lhe a mo.
- Eu sei disso, Buxton.  uma longa histria que voc vai ouvir muitas 
vezes ainda. Acontece que eu estava ajudando o exrcito a capturar o 
bando de Baker, que se escondeu por aqui.
O mordomo ento foi providenciar algo para seu patro comer. Acordou o 
cozinheiro e mais dois criados.
com tudo isso, j eram quase trs horas quando Neil, afinal, deitou-se na 
cama de seus ancestrais e adormeceu
121
exausto.
Quando desceu para o caf da manh, estava pensando em Vanda e decidido a 
ir v-la logo cedo.
Aproveitaria para devolver Kingfisher e providenciar para que seus 
cavalos fossem levados para seus estbulos.
Estava entrando na sala quando um lacaio trouxe uma carta com carimbo de 
urgente que acabara de chegar.
Bastou olhar de relance a caligrafia do envelope para saber de quem era.
Neil serviu-se primeiro, e terminou a refeio calmamente, para s ento 
abrir a carta de Caroline, em que ela o informava ter organizado uma 
festa na manso Wyn para o prximo final de semana, e que o prncipe 
regente estava encantado em ser hspede dele. E continuava:
"Espero que no fique zangado comigo, querido Neil, mas eu disse ao 
prncipe que estamos noivos secretamente. Ele prometeu no falar no 
assunto".
Por instantes, o conde ficou parado, com a folha de papel na mo, o olhar 
escurecendo de raiva com o que lera. Ento, de repente, caiu na 
gargalhada e jogou a carta sobre a mesa.
Sabia ter encontrado a resposta para seu problema ao resolver o de Vanda.
Agora estava livre!
Na noite anterior, com medo do que pudesse acontecer a ela, preocupara-se 
apenas em salv-la. No lhe ocorrera ainda que Caroline j no era uma 
ameaa a sua vida ou a sua felicidade. Na verdade, at esquecera da 
existncia dela.
Agora estava amando e casado!
Estava fora de cogitao dar festas na manso at que voltasse da lua-de-
mel.
Escreveria imediatamente ao prncipe regente contando
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a ele tudo o que acontecera. Sabia que Sua Alteza real adoraria ser o
primeiro a saber.
Embora o conde no gostasse de publicidade, sabia que seria impossvel 
impedir que a notcia da captura de Baker se espalhasse e se tornasse uma 
sensao.
Querendo ou no, iria tornar-se um heri nacional!
Alm disso, o detalhe romntico de seu casamento com Vanda nas runas da 
capela, ao luar, cativaria o corao de todas as mulheres.
Caroline poderia dizer o que quisesse que ningum lhe daria ouvidos.
Saiu da sala e foi para seu gabinete, satisfeito.
Escreveu a carta que mandou levar a Carlton House por dois cocheiros com 
cavalos velozes. Depois montou em Kingfisher e atravessou o parque em 
direo  casa de Vanda.
Sempre gostara muito de seu lar, mas, depois de tantos anos ausente, 
tinha se esquecido do quanto era bonito.
O sol dourava tudo.
As flores de primavera, os patos com suas ninhadas no lago, os pssaros 
alimentando seus filhotes nos ramos das rvores, tudo lhe dizia que ele 
estava comeando uma vida nova, que seria bem diferente da que vivera nos 
ltimos anos, to dura e perigosa.
Deixou Kingfisher no estbulo e, encontrando a porta da casa aberta,
entrou.
Tinha a intuio de que Vanda estaria na sala de visitas. E foi realmente 
l que a encontrou.
Estava em p diante da janela e o sol iluminava seus cabelos de cor rara.
Ela no percebeu logo que Neil estava ali, s quando ele j estava bem 
perto  que ela se virou. Por instantes pousou nele o olhar luminoso e 
brilhante, sem nada dizer,
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depois baixou as plpebras, sem jeito, e fez uma mesura.
- Voc dormiu bem? - perguntou Neil, com sua voz grave.
- Eu estava to cansada. Mas voc tambm devia estar...
- S que eu tambm estava muito feliz - o conde disse. - Saber, que voc 
estava fora de perigo era s o que importava.
Vanda desviou o olhar novamente.
- Eu lhe sou muito grata por... ter me salvado, mas... acho que ningum 
deve saber como voc fez isso...
- Por que no?
- No estou me referindo ao modo herico como capturou os bandidos - 
Vanda acrescentou depressa. - Falo do... nosso casamento.
Ao dizer as ltimas palavras, sua voz titubeou e ela enrubesceu.
- Voc tem vergonha disso? - o conde perguntou.
- No, claro que no!  que... Bem, foi uma ideia brilhante para me 
salvar e proteger deles, mas... no foi um casamento legal.
- No sei por que diz isso. A cerimnia ocorreu num lugar santificado. 
Meu primeiro nome  realmente John, e como pertencemos ambos a esta 
parquia no h necessidade de licena especial ou de proclamas.
Vanda respirou fundo.
- Mas... voc h de querer sua liberdade... O conde sorriu e respondeu:
- Eu no disse isso.
- Voc nem me conhece direito...
- Eu conheo voc, deixe-me ver... h dezoito anos e sei de algo que  
mais importante do que o tempo que convivemos.
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- O que ? - Vanda perguntou, curiosa.
- Que voc  exatamente o tipo de esposa que desejo para assumir o lugar 
da minha me na direo de Wyn e,  claro, para cuidar de mim!
Vanda ergueu o olhar para ele, mal podendo acreditar no que ouvia. Ento 
ele a envolveu nos braos, dizendo:
- Est mesmo querendo se livrar do nosso casamento assim to depressa?
- Eu amo voc... - Vanda murmurou. - S que, por outro lado, sei que deve 
haver muitas outras mulheres... melhores do que eu...
- No  possvel que seja to modesta! Assim que vi voc l naquela 
estalagem, achei que era a mulher mais atraente e desejvel que conheci 
em toda minha vida.
-  verdade mesmo?
- Juro por tudo que h de mais sagrado para mim. Puxou-a mais para perto 
e continuou:
- Eu me apaixonei por voc de imediato, embora s viesse a perceber que 
era amor quando pensei que fosse perd-la...
- Ah, Neil!
Ficaram se olhando nos olhos por um longo instante, depois, devagar, o 
conde aproximou os lbios dos dela. Beijou-a com suavidade e ternura at 
que a doura e inocncia daqueles lbios o excitaram como nunca. Ento 
seus beijos se tornaram mais ardentes e prolongados.
Quando ambos j estavam ofegantes, ele afastou um pouco o rosto para 
dizer:
- Se tentar fugir de mim, juro que vou prend-la e nunca mais deix-la ir 
embora.
- Isso  tudo o que eu desejo... - ela murmurou.
- Pois agora sou um salteador, minha querida, e estou
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 exigindo que me entregue seu corao! - ele brincou, fingindo apontar
uma arma.
- Ele  todo seu! Sempre foi seu, desde que em criana eu o adorava com 
meu heri!
- Ento trate de continuar me adorando! Eu preciso tanto de voc! No 
saberei mais viver sem sua companhia...
Beijou-a de novo at que se deixaram cair juntos no sof. Vanda apoiou a 
cabea no ombro de Neil.
- O que vim realmente lhe dizer  que agora que voc  minha esposa, vou 
lev-la comigo para a manso e assim que voc se sentir disposta iremos 
juntos inspecionar as outras casas que possuo e que no visito h muito 
tempo.
- Ns iremos sozinhos?
- Estamos em lua-de-mel, meu amor. E ningum vai interferir ou nos 
perturbar at que voltemos para Wyn.
- H tanta coisa para voc fazer aqui!
- Sei disso, mas agora h muito para eu aprender e descobrir sobre minha 
esposa, e ela tem prioridade!
Vanda riu, depois falou:
- Tenho medo de que sua famlia fique decepcionada por voc no ter 
casado com algum mais importante do que eu...
- Ao contrrio, eles adoraro minha escolha! A maior parte dos meus 
parentes admira seu pai e gostava muito da sua me.
Beijou-a na testa, antes de acrescentar:
- Voc e eu formaremos a famlia ideal para dar continuidade  
descendncia dos Wyn.
Vanda enrubesceu e escondeu o rosto no peito dele.
- Sempre pensei que era triste ser filha nica...
- Ns teremos uma famlia numerosa e transformaremos toda ala oeste da 
manso num enorme berrio e rea de recreao para crianas, assim 
nenhum vadio vai querer
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se esconder l. Vanda lembrou-se de algo.
- O sr. Taylor disse, quando me falou dos salteadores, que eles tinham 
ido l para esconder o produto dos roubos.
- Ns procuraremos, meu amor, e, em todo o caso, se encontrarmos algum 
dinheiro, ns entregaremos aos soldados e marinheiros que foram feridos 
na guerra e que no recebem penso nem indenizao.
- Eu sabia que voc se preocupava com isso tambm...
- Esse  um problema que pretendo colocar para discusso na Cmara dos 
Lordes.
Beijou-a na ponta do nariz, antes de prosseguir:
- E tenho certeza, minha querida, de que voc  capaz de conseguir 
doaes para remediar os casos mais urgentes.
- Voc  to inteligente e brilhante! Sabe que farei tudo o que me pedir, 
por isso, quando tiver algum plano, espero que me deixe ajud-lo.
- Voc me ajudar, voc estar comigo sempre e me amar. Esse  meu 
primeiro plano para o futuro!
Vanda riu e passou os braos pelo pescoo dele.
- Isso  fcil porque eu amo voc, amo voc, e vou ficar repetindo essas 
palavras para sempre.
- E eu quero ouvi-las para sempre...
Ento beijou-a de novo, desta vez no com suavidade, mas com paixo, um 
ardor que crescia e os incendiava. Neil sabia que despertara nela o mesmo 
desejo que o consumia.
Por outro lado, era algo muito diferente do que sentira com todas as 
outras mulheres at ento.
Vanda era sublime e perfeita.
Ele seria capaz de matar qualquer homem que tentasse estragar sua
inocncia e pureza.
- Voc  minha... minha!
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Os beijos continuavam, cada vez mais ntimos e apaixonados, mas Vanda no
sentia medo. Sabia que isso era amor, o verdadeiro amor, a unio de duas
pessoas que se completam de tal maneira que se tornam um s ser.
- Eu amo voc, amo voc... - Vanda disse, do fundo do corao.
Era um amor que jamais morreria, que s aumentaria com o passar do tempo.
Um amor do qual no poderiam fugir.
S lhes restava renderem-se incondicionalmente, sabendo que era um
presente de Deus.
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                            *****

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes 
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita 
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou 
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. 
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que 
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides 
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das 
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de 
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e 
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do 
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

Fim
